A Casas Bahia entrou em recuperação judicial com R$ 17,3 bilhões em dívidas e um prejuízo de R$ 10,1 bilhões só no último trimestre. Juros altos pesam, mas especialistas ouvidos por Exame e InfoMoney apontam outros fatores: modelo de negócio ultrapassado, crise de caixa estrutural e questões de governança na empresa.

O tamanho do rombo

O prejuízo do trimestre foi 18 vezes maior que o registrado no mesmo período de 2025. O passivo circulante, de R$ 11,97 bilhões, superou o ativo circulante, de R$ 7,83 bilhões, um rombo de R$ 4 bilhões no caixa de curto prazo.

O estoque da empresa caiu de R$ 5,4 bilhões para R$ 4,2 bilhões em um único trimestre. A companhia já havia passado por uma recuperação extrajudicial em 2024, quando renegociou R$ 4,07 bilhões em dívidas.

Das 1.042 lojas físicas, 298 foram fechadas, quase 29% do total. O corte de pessoal chega a 1.900 postos de trabalho, com expectativa de alcançar 3.000.

O que os especialistas apontam além da Selic

A economista-chefe da Serasa Experian, Camila Abdelmalack, resume o cenário num custo financeiro bastante elevado, mas destaca que a crise também reflete mudanças estruturais no varejo.

Já o especialista em insolvência Marco Túlio Dias, do escritório Abi-Ackel Advogados, vê sinais de um problema maior do que a simples queda do consumo, indicando uma crise de caixa mais profunda.

A advogada Letícia Málaga, especialista em governança corporativa, chama atenção para a política de remuneração de executivos durante a deterioração financeira da empresa. Ela observa que saídas de executivos coincidiram com a aprovação da recuperação judicial.

A Selic caiu para 2% em 2020 e 2021 e depois subiu a 15%, pressionando o crédito. Hoje, 84,9% das famílias com renda de até três salários mínimos estão endividadas, segundo os mesmos levantamentos.

As apostas esportivas também entraram na conta. As famílias brasileiras destinaram R$ 62,5 bilhões a plataformas de apostas em 2025.

Para os especialistas, é um fator que reduz a fatia do consumo, mas não explica sozinho uma recuperação judicial deste tamanho.

O que fica em aberto

Os mesmos juros altos e o mesmo consumidor endividado não afundaram todo o varejo por igual. Concorrentes seguiram operando no mesmo cenário macroeconômico.

A pergunta que os especialistas deixam é até que ponto decisões internas de gestão, e não só o ambiente externo, vão pesar na avaliação final do que levou a Casas Bahia à recuperação judicial.