A família Batista, dona da J&F e da JBS, fechou a compra de 100% da Avibras Aeroco, fabricante brasileira de mísseis e sistemas de defesa. Em nota, a própria Avibras confirmou a operação nesta sexta-feira (21) e informou que o negócio ainda depende da aprovação do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade).

A compra é feita pela Globe Investimentos, veículo da família Batista, que adquire a fatia hoje em poder do fundo FIP Brasil Crédito. A Avibras entrou em recuperação judicial em março de 2022, com dívida de R$ 600 milhões.

Hoje a dívida está em R$ 640 milhões, de acordo com levantamento da Gazeta do Povo.

A empresa fabrica o sistema ASTROS, lançador móvel de foguetes e mísseis com alcance de até 300 km. Também produz o Míssil Tático de Cruzeiro MTC-300, ainda em certificação, e o míssil balístico AV-SS-100, de mais de 100 km de alcance.

Joesley Batista já havia participado, em abril, de uma captação de R$ 300 milhões coordenada pelo Fundo Brasil Crédito para financiar a retomada da produção.

Em 24 de julho, o presidente Lula visitou a fábrica da empresa, sediada em São José dos Campos (SP). A Comissão de Relações Exteriores e Defesa da Câmara, da Câmara dos Deputados, destacou o papel do ASTROS e do MTC para a soberania nacional.

A alternativa que ficou de fora

Antes de fechar com a família Batista, a Avibras negociava uma possível venda total ou parcial para a australiana DefendTex, de acordo com a Gazeta do Povo.

Especialistas ouvidos pela reportagem apontam que esse caminho colocaria o Brasil na contramão de países que blindam a própria indústria de defesa.

"Em todos os países do mundo essas indústrias têm uma legislação especial", disse o professor Eduardo Brick, da UFF e da Associação Nacional de Engenharia, à Gazeta do Povo.

Vitélio Brustolin, pesquisador da Universidade Harvard, foi na mesma linha ao jornal: "ninguém no mundo trata empresas da base industrial de defesa como empresas abertas".

O Brasil investe 1,1% do PIB em Defesa, patamar que os comandantes das Forças Armadas querem elevar para 2%. A Avibras ainda soma mais de R$ 75 milhões em salários e rescisões atrasados, segundo o mesmo levantamento.

O que dizem o Exército e o governo

O Exército acompanha as negociações com foco nos objetivos estratégicos da empresa e mantém os contratos suspensos temporariamente. O governo federal afirmou não querer o fechamento da Avibras, mas não detalhou publicamente sua posição sobre a venda à família Batista.

Joesley Batista foi preso duas vezes entre 2017 e 2018: a primeira por suspeita de uso de informação privilegiada da própria delação premiada, a segunda por suspeita de corrupção ativa.

Agora ele se torna controlador da maior indústria bélica do país.

A conclusão formal do negócio depende da análise do Cade e da capacidade dos novos controladores de financiar programas de longo ciclo, que exigem certificação e encomendas do governo.

O que ainda depende do Cade

A aprovação da compra pelo Cade é o próximo capítulo, mas não o único.

Resta saber se o novo controle nacional resolve o problema estrutural apurado pela Gazeta do Povo. O orçamento de defesa, segundo os próprios comandantes das Forças Armadas, é insuficiente para sustentar programas como o ASTROS no longo prazo.