A inteligência artificial já é usada por 95% das empresas brasileiras com mais de 100 funcionários, segundo estudo da IDC divulgado em 6 de agosto pela Associação Brasileira das Empresas de Software (ABES). Em levantamento da S&P Global Market Intelligence, a taxa de empresas que abandonaram projetos de IA subiu de 17% em 2024 para 42% em 2025.

O levantamento da IDC ouviu 107 tomadores de decisão de tecnologia. Segundo a pesquisa, 86% das empresas vão ampliar o orçamento de TI em 2026 e apenas 0,9% pretendem reduzir.

O movimento acompanha o investimento em infraestrutura, que inclui o supercomputador previsto no plano brasileiro de IA.

"A IA deixou de ser um projeto experimental para ocupar posição central na estratégia empresarial", afirmou Fabio Martinelli, Senior Analyst Enterprise da IDC Brasil.

O 95% não vale para todas as empresas

O número não descreve o conjunto das companhias do país. A pesquisa TIC Empresas, do Cetic.br, ouviu 4.174 empresas com 10 ou mais pessoas ocupadas e encontrou 17% de adoção, ante 13% no ano anterior.

Entre as pequenas, de 10 a 49 funcionários, o índice é de 15%. Elas representam 87% do universo pesquisado. Mesmo entre as grandes, com 250 funcionários ou mais, o levantamento aponta 50%.

O avanço é puxado justamente pelas pequenas, afirmou Alexandre Barbosa, gerente do Cetic.br|NIC.br, "embora ainda haja muito espaço para crescimento".

Do outro lado da conta está o retorno. Segundo o relatório "The GenAI Divide: State of AI in Business 2025", do MIT, 95% dos projetos-piloto de IA não entregam impacto mensurável no resultado financeiro das empresas.

O Gartner projeta que mais de 40% dos projetos de IA agêntica serão cancelados até o fim de 2027. Os motivos são aumento de custos, valor pouco claro para o negócio e controles de risco inadequados.

Para Anushree Verma, diretora analista sênior do Gartner, "muitos projetos estão em fase experimental, impulsionados pelo hype e frequentemente mal aplicados". A consultoria chama de "agent washing" a prática de renomear chatbots e ferramentas de automação como IA agêntica sem recursos substanciais.

A ferramenta escolhida antes do problema

Para Arthur De Santis, autor do livro "CIO Codex: The IT Framework", a origem das falhas está numa lógica invertida. Primeiro se escolhe a ferramenta, depois se tenta encaixar o problema dentro dela.

"A tecnologia não deve ser a resposta automática para todas as dificuldades da empresa", afirma De Santis. Ele defende perguntas sobre processo, modelo operacional, objetivos e riscos antes de discutir plataformas.

Ele cita a migração para a nuvem como exemplo recorrente. "O erro não está na nuvem. O erro está em migrar sem entender por que migrar, quais problemas precisam ser resolvidos e quais resultados são esperados", diz.

O desperdício tem ordem de grandeza conhecida. Empresas brasileiras podem perder entre R$ 2 milhões e R$ 8 milhões por ano ao adotar tecnologia sem estratégia, segundo Igor Baliberdin, fundador da LOOOP.

"A tecnologia é um acelerador. Se o processo é confuso, você acelera a confusão", afirma Baliberdin.

Há também risco jurídico e reputacional. Para Carlos Perobelli, fundador do theGarage IA, a questão não é evitar o erro, e sim contê-lo. "Isso exige critérios claros de uso, definição de responsabilidade e mecanismos de validação", diz.

A base para esse controle ainda é frágil. No estudo da ABES, apenas 48% das empresas afirmam ter dados bem estruturados e governados. O Gartner aponta que 85% dos projetos de IA falham por dados inadequados.

Baliberdin recomenda checar, antes do contrato, quanto o problema atual custa em horas ou receita perdida. Também se os processos estão documentados e se há indicadores definidos para avaliação em seis meses.

Quanto tempo o orçamento sustenta a aposta

Adoção é fácil de medir, retorno não é. As empresas ouvidas pela IDC vão ampliar o orçamento de TI em 2026, e a redução de custos aparece só em décimo lugar entre as prioridades, com 13%. Fica em aberto por quanto tempo isso se sustenta.