O Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic) recebeu nesta segunda-feira (17) a Amcham, Câmara Americana de Comércio para o Brasil, na primeira rodada de conversas com o setor privado sobre o tarifaço dos Estados Unidos, quatro dias após o governo abrir o processo da Lei de Reciprocidade.

O encontro foi conduzido pelo ministro Márcio Elias Rosa. As tarifas dos EUA somam 37,5% sobre uma série de produtos brasileiros, entre os 25% anunciados por Donald Trump e uma sobretaxa adicional de 12,5%. Segundo o governo, US$ 6,6 bilhões em exportações são afetados.

O que o governo já fez

A Secretaria-Executiva da Câmara de Comércio Exterior (Camex) abriu formalmente, em 13 de agosto, o processo para avaliar a aplicação da Lei da Reciprocidade Econômica. Pela norma, as contramedidas devem seguir, na medida do possível, a mesma proporção do prejuízo causado pelo outro país.

O Ministério das Relações Exteriores (MRE) vai notificar os Estados Unidos e pedir a abertura de consultas diplomáticas. O Brasil também mantém reclamação no sistema de solução de controvérsias da Organização Mundial do Comércio (OMC) e prevê medidas de proteção pelo Plano Brasil Soberano.

“As tarifas norte-americanas são injustificadas e arbitrárias, e o Brasil continuará defendendo sua posição em todas as instâncias cabíveis”, informou o MRE.

A Amcham pede cautela. Em nota, a entidade disse que “a adoção de eventuais contramedidas deve ser evitada, diante do considerável risco de elevar custos” para empresas e consumidores dos dois países.

Uma pesquisa feita pela própria câmara mostra que 90,5% das empresas associadas defendem o diálogo diplomático com os EUA, contra apenas 3,2% que apoiam a reciprocidade.

O setor produtivo já vinha sendo ouvido antes da reunião com a Amcham.

Em 11 de agosto, Márcio Elias Rosa se reuniu no WTC Events Center, em São Paulo, com representantes de 29 setores atingidos pelas tarifas, ao lado do presidente da ApexBrasil, Laudemir Müller, e da diretora de Negócios da agência, Maria Paula Velloso.

A estimativa da ApexBrasil é de 5.400 empresas brasileiras atingidas pelo tarifaço. A agência estruturou um plano de diversificação de exportações para redirecionar parte desses negócios a outros mercados, além de manter o atendimento às empresas que já fazem parte de sua base.

O Palácio do Planalto trata a resposta ao tarifaço como um processo em etapas, que pode não se limitar à Lei de Reciprocidade.

O ponto em aberto

O governo diz que a resposta ao tarifaço será construída aos poucos, sem prazo fechado, e que a Lei de Reciprocidade é só um dos instrumentos em avaliação. A reunião desta segunda-feira mostra o Mdic ouvindo justamente o lado que mais pede cautela.

Falta saber se esse diálogo muda a estratégia do governo ou apenas adia a decisão sobre medidas mais duras.