O Discord continua permitindo que usuários no Brasil usem ferramentas de transmissão de vídeo em tempo real e compartilhamento de tela. A brecha segue aberta mais de um mês depois de a ANPD determinar a suspensão imediata de todas as lives da plataforma no país.
A GloboNews encontrou ao menos duas ferramentas na seção nativa de "atividades" do Discord que seguem plenamente funcionais para usuários brasileiros, sem restrição técnica ou bloqueio geográfico aparente. Elas permitem espelhar a tela e exibir imagens em tempo real durante chamadas de voz.
Por segurança, a reportagem optou por não divulgar os nomes das ferramentas nem o passo a passo para ativá-las.
Um dos serviços chega a exibir um aviso em inglês antes de começar. Nele, o usuário precisa marcar que "entende que este recurso não tem a intenção de burlar restrições regionais ou bloqueio geográfico". Na prática, porém, o vídeo é transmitido normalmente na sala.
Procurada pela GloboNews, a ANPD informou que, a partir dos dados apresentados, pediu esclarecimentos ao Discord. A autoridade alertou que o descumprimento de medidas preventivas pode acarretar sanções, incluindo multa diária.
Para o antropólogo da tecnologia David Nemer, professor da Universidade da Virgínia, as ferramentas comprometem a eficácia da suspensão.
"As atividades são aplicativos que rodam dentro do próprio Discord, construídos com o kit de desenvolvimento da empresa e abertos em uma vitrine que ela controla", avalia Nemer.
Se uma dessas atividades entrega exatamente o que a ANPD mandou suspender, que é a tela ao vivo em sala fechada, a suspensão vira fachada. Se a porta foi aberta de propósito ou ficou esquecida, pouco importa: a responsabilidade é do Discord.
Nemer ressalta que a brecha mantém os riscos que motivaram a suspensão original. Uma atividade de compartilhamento de tela em sala com senha reproduz por inteiro a combinação que preocupa autoridades: vídeo ao vivo, sala fechada, público selecionado e moderação fraca.
A ANPD determinou a suspensão imediata das lives do Discord no Brasil em agosto. Desde então, o caso também chegou à Justiça, que marcou audiência entre o governo e o Discord numa disputa de R$ 500 milhões.
O episódio ocorre em meio a um movimento mais amplo de restrição ao acesso de menores a redes sociais. Enquanto a União Europeia proíbe menores de 13 anos nas redes, o Brasil avança com medidas pontuais por aplicativo.





























