A ONU Mulheres divulgou neste sábado (19) um documento com propostas a candidatos, partidos e instituições públicas para reduzir as desigualdades de gênero antes do primeiro turno das eleições de 2026. O texto trata de participação política, violência contra mulheres, trabalho, cuidado e crise climática.

Segundo o documento, o eleitorado feminino soma 52,8% do total no Brasil, mas mulheres ocupam apenas 17,2% das cadeiras da Câmara dos Deputados e 18,5% do Senado. Das 91 deputadas eleitas em 2022, 29 são negras, menos de 6% do total de cadeiras da Câmara.

A distância entre as duas fatias mostra o tamanho do hiato entre quem vota e quem decide as políticas públicas no país.

Para o cientista político Elias Tavares, ouvido pelo g1, o principal desafio é garantir que as propostas não sejam lembradas apenas durante as eleições.

"Afinal, uma proposta só se transforma em política pública quando sai do discurso, entra no planejamento do governo e chega efetivamente à vida das pessoas", disse Tavares.

Prevenir feminicídio, ampliar creches, estruturar redes de cuidado ou mudar padrões dentro de partidos exige gasto permanente e produz resultado ao longo dos anos. O desafio é menos convencer que o problema existe e mais impedir que a pauta seja a primeira a ser relativizada quando chega à fase de execução.

A frase é do cientista político Samuel Oliveira, que aponta a execução orçamentária como o ponto mais frágil das políticas de gênero.

O que a ONU propõe aos candidatos?

A ONU Mulheres propõe cotas eleitorais efetivas, com fiscalização para que o dinheiro de campanha chegue às candidatas na hora certa e na proporção correta. O documento também cobra metas numéricas de paridade nas direções partidárias, com resultados publicados para acompanhamento da sociedade.

Em carta que acompanha o documento, a representante da ONU Mulheres no Brasil, Gallianne Palayret, afirmou que as propostas são "caminhos objetivos para que a democracia brasileira represente, de fato, a maioria da sua população". O desequilíbrio não é só brasileiro.

Um levantamento anual da UN Women com o Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais da ONU, também divulgado em setembro, projeta que a paridade completa entre homens e mulheres só deve ser alcançada em 2197, daqui a 171 anos, no ritmo atual de avanço.

Nos parlamentos nacionais, a paridade está prevista só para 2089. O mesmo levantamento mostra que 1 em cada 3 mecanismos institucionais de promoção da igualdade de gênero perdeu poder desde 2024, e 25% sofreram cortes de orçamento.

No mundo, mulheres ocupam 27,4% dos assentos parlamentares e comandam 22,4% dos cargos de primeiro escalão do Executivo. Seis em cada sete países têm hoje um homem no comando do governo.

No Brasil, as candidaturas femininas cresceram nos últimos pleitos, mas ainda estão longe da metade das vagas. Em agosto, o TSE registrava mulheres em 34,9% das candidaturas para as eleições de 2026.

O tema já rendia debate no Congresso, como mostrou o crescimento da bancada feminina e suas pautas na atual legislatura.

A violência política de gênero também entrou no radar da ONU Mulheres durante a campanha atual, como mostrou o caso de candidatas do PT em Minas Gerais alvo de ameaças coordenadas nas redes sociais.