A promessa do presidente Lula de oferecer canetas emagrecedoras de graça pelo SUS esbarra num precedente pouco falado. A Conitec, comissão que decide o que entra na rede pública, já rejeitou o mesmo medicamento, alegando o custo alto para os cofres públicos.
A estimativa à época era de R$ 4,1 bilhões a R$ 6 bilhões em 5 anos.
A promessa, feita durante visita à fábrica da Eurofarma em Montes Claros (MG), ainda depende de três etapas: recomendação da Conitec, decisão formal do Ministério da Saúde com protocolo clínico definido, e o cálculo de onde sairá o dinheiro.
A Conitec adiou a discussão para 7 de outubro. Uma estimativa mais recente da SBEM (Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia) recalcula o impacto para cima: até R$ 8 bilhões por ano em larga escala.
A entidade defende o acesso ampliado ao tratamento, mas pede cautela com a ideia de que a caneta resolve o problema sozinha. "Obesidade sem achismo, muito mais que canetas emagrecedoras" foi o tema de um debate promovido pela própria SBEM sobre o tema.
O endocrinologista Clayton Luiz Dornelles Macedo, diretor de comunicação da SBEM, reconhece a obesidade como doença crônica de impacto sistêmico, mas defende uma abordagem baseada em evidências. Isso inclui avaliação individualizada, acompanhamento contínuo e estratégias multidisciplinares, não apenas o medicamento injetável.
Genéricos já derrubaram o preço em até 35% no mercado privado, mas isso ainda não resolve a conta do SUS.
Por que o custo é tão alto?
O preço de mercado explica parte da conta: o Ozempic é vendido no Brasil a partir de R$ 929 a dose, e o Wegovy, entre R$ 890 e R$ 1.915. Multiplicado por milhões de pacientes elegíveis, o valor sobe rápido para o orçamento público.
É esse cálculo que pesa mais no SUS. Foi o que já levou a Conitec a dizer não ao Wegovy, antes mesmo de o presidente prometer o contrário em praça pública.
A promessa tem lastro num projeto real. O Ministério da Saúde já testa a semaglutida no SUS pelo estudo Real-Bari, com o Grupo Hospitalar Conceição, em Porto Alegre, desde 26 de junho. O projeto acompanha 250 pacientes com obesidade grave, por dois anos.
Enquanto o debate sobre o custo avança, a fila que motiva o projeto só cresce. A obesidade entre adultos brasileiros passou de 11,8% em 2006 para 25,7% em 2024, segundo o Vigitel, do Ministério da Saúde, mais que o dobro em 18 anos.
O excesso de peso, no mesmo período, foi de 42,6% para 62,6% dos adultos.
O ponto em aberto
A Conitec volta a discutir o tema em 7 de outubro, mas o histórico recente pesa contra: a mesma comissão já disse não a um pedido semelhante citando o custo.
Resta saber se a nova rodada vem com um plano de financiamento que convença quem rejeitou o pedido anterior, ou se a promessa esbarra de novo na mesma conta que a freou da última vez.





























