Um estudo alemão mapeou, célula por célula, como o vírus herpes simplex tipo 1 (HSV-1), causador da herpes labial, se espalha pela pele humana. A pesquisa, publicada na sexta-feira (30 de outubro) na revista Science Advances, usou organoides de pele cultivados em laboratório.

Os organoides são estruturas que reproduzem o tecido real, com epiderme, derme, folículos pilosos e neurônios sensoriais. O modelo permitiu acompanhar a infecção em três dimensões.

Pesquisadores do Centro Max Delbrück e do Centro Médico Universitário de Hamburgo-Eppendorf (UKE), na Alemanha, lideraram o trabalho. O estudo mostrou que a infecção não ocorre da mesma forma em todo o tecido.

Por que algumas células resistem mais ao vírus?

Os fibroblastos da derme acumulam grandes quantidades do vírus logo nas primeiras etapas da infecção. Já os queratinócitos basais, na camada mais profunda da epiderme, e algumas células dos folículos pilosos mostraram níveis menores de infecção, mesmo perto de células já infectadas.

O vírus só alcançou os folículos pilosos e os neurônios sensoriais em etapas posteriores. Para os pesquisadores, isso indica que esses tipos de células podem ter alguma resistência natural ao HSV-1.

A equipe também analisou quais genes as células ativavam durante a infecção, com uma técnica de transcriptômica espacial que identifica a atividade genética sem perder a localização de cada célula no tecido.

Os fibroblastos aumentaram a atividade do gene IER3 na frente da infecção. Já os queratinócitos basais elevaram o gene IRF3, um regulador antiviral conhecido.

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Para o autor principal, Emanuel Wyler, do Centro Max Delbrück, moléculas de sinalização da família TNF também foram ativadas de forma coordenada na borda da infecção.

"Os TNFs ativam o sistema imunológico e podem ser um fator importante para determinar o quão bem nosso corpo consegue controlar a infecção", disse Wyler.

Entender por que certas células resistem mais pode apontar caminhos para conter a infecção antes que ela alcance os nervos.

O que vem a seguir na pesquisa?

Os pesquisadores querem construir modelos mais completos, com células do sistema imunológico e vasos sanguíneos. A ideia é entender melhor como o corpo controla a infecção e onde ocorre o dano ao tecido.

A técnica de organoides também tem sido usada para estudar outras infecções. Cientistas já cultivaram tecido cerebral humano em camundongos vivos para observar doenças de perto.

O HSV-1 não é o único vírus da família herpes que preocupa a medicina. A atriz Viola Davis revelou recentemente dor intensa por herpes-zóster, causada por outro vírus da mesma família, que também tem atingido cada vez mais pessoas jovens.