O jornal americano The Washington Post revelou nesta terça-feira (6) que o silêncio de Donald Trump sobre o 2º turno brasileiro foi estratégia deliberada. Um assessor da Casa Branca disse que o apoio a Flávio Bolsonaro (PL) reforçava o discurso antiamericano de Lula.

"Conseguíamos ver isso nos dados", disse o assessor, sob condição de anonimato. "Sempre que Lula usava Trump para dizer que os EUA estavam tentando abusar do Brasil, isso repercutia positivamente no público."

Mas quando a campanha de Flávio se concentrava em temas internos, o efeito era o oposto: o ímpeto do discurso antiamericano de Lula diminuía, segundo o relato do assessor ao jornal.

A orientação interna, de acordo com a reportagem, foi "fiquem quietos". A avaliação da Casa Branca era que apoio explícito a Flávio seria contraproducente e alimentaria a narrativa de interferência eleitoral estrangeira.

O secretário de Estado, Marco Rubio, limitou-se a dizer que os EUA acompanhariam os desdobramentos. Trump chamou o resultado do 1º turno de "vitória", sem dizer a quem se referia.

Por que o silêncio virou estratégia

O objetivo, nas palavras do assessor, era minimizar qualquer aparência ou fundamento para o argumento de que os EUA estavam interferindo na eleição brasileira. A posição contrasta com a adotada em outras disputas latino-americanas.

Trump endossou publicamente o candidato colombiano Abelardo de la Espriella, que venceu o pleito no país. Com Flávio, o roteiro foi outro, mesmo depois de recebê-lo na Casa Branca em maio.

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Em 2 de outubro, dois dias antes do 1º turno, Trump evitou citar o senador ao ser questionado por jornalistas: "Estamos acompanhando tudo isso e observando esta eleição muito de perto", disse.

Segundo o resultado oficial com 100% das urnas apuradas, Flávio Bolsonaro terminou o 1º turno com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula. Os dois disputam o 2º turno em 25 de outubro.

O que a campanha de Lula fez com o tema

A proximidade de Flávio com Trump virou um dos principais pontos de ataque do petista. Lula incorporou ao discurso o tema da soberania nacional, associando o adversário a uma possível ingerência externa.

Flávio nega ter viajado aos Estados Unidos para pedir apoio. Mas passou a adotar em seus discursos temas defendidos pelo governo americano.

O pano de fundo já tinha capítulo recente. A TV Sim Brasil mostrou na semana passada Trump elogiando Flávio em público ao mesmo tempo em que via o 2º turno como disputa apertada. A reportagem do Post agora expõe o cálculo por trás dessas falas.

O que acontece agora

O diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, afirmou no domingo (4) que a PF abriu procedimento para apurar denúncias de interferência estrangeira na eleição, sem detalhar o escopo. O 2º turno entre Lula e Flávio é em 25 de outubro.