O presidente da Bolívia, Rodrigo Paz, decretou estado de emergência no sábado (31 de outubro) para enfrentar secas e enchentes ligadas ao super El Niño. A medida libera recursos e equipes de resgate para as regiões mais afetadas do país vizinho ao Brasil.
"Fizemos um trabalho enorme para preservar o meio ambiente e para que os efeitos do super El Niño neste ano sejam os menores possíveis", disse Paz, em pronunciamento à nação.
O El Niño é o aquecimento anormal das águas do Pacífico Equatorial, que altera ventos e chuvas em boa parte do planeta a cada dois a sete anos. No Brasil, costuma trazer mais chuva ao Sul e mais seca ao Norte e ao Nordeste.
"Super El Niño" descreve os episódios mais intensos do fenômeno, e o deste ano está entre eles.
Por que este episódio é diferente
A temperatura da superfície do Pacífico tropical pode chegar a 3,6°C acima da média neste episódio, segundo projeções citadas por cientistas do Berkeley Earth. O recorde anterior, do El Niño de 2015/2016, foi de 2,75°C.
Essa diferença coloca o fenômeno deste ano com cerca de 90% de chance de ser o mais forte em 150 anos de registros. O pico é esperado para dezembro.
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Os oceanos absorvem cerca de 90% do excesso de calor gerado pela crise climática, o que torna cada novo El Niño mais intenso que o anterior sobre uma base já mais quente.
O Brasil já sente os efeitos
O Brasil não está esperando o pico para sentir o fenômeno. O Amazonas já soma 46 cidades em emergência por estiagem e fogo, e produtores rurais temem um corte de até 10% na safra de soja por causa da seca.
A conta também aparece na saúde das pessoas, não só nas lavouras e nos rios: mais de 48 mil brasileiros morreram em duas décadas por causa do calor extremo.
Há 60 anos, o país registrava 7 dias de onda de calor por ano; hoje, a média já passa de 52 dias.
No El Niño de 2015, os gastos das famílias brasileiras com alimentos subiram 12%, atribuídos pelos economistas da época à quebra de safras e à alta dos preços agrícolas.
O padrão de incêndios recordes já se repete neste ano, como mostrou a TV Sim Brasil sobre o Amazonas em outubro.
Quem vai pagar a conta da falta de preparo
Decretar emergência, como fez a Bolívia, é a resposta mais comum ao fenômeno, mas resolve pouco da causa estrutural. Hoje, 65% dos municípios brasileiros têm baixa capacidade de adaptação climática, segundo levantamentos citados por organizações ambientais.
Esse número ajuda a explicar por que o mesmo fenômeno, repetido a cada poucos anos, continua pegando estados e prefeituras de surpresa. A pergunta que fica para o Brasil é se a infraestrutura de prevenção vai crescer na mesma velocidade que o próprio El Niño.































