A Corregedoria do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) fez buscas nesta quinta-feira (24) no gabinete do desembargador Newton Ramos, do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1), com apoio da Polícia Federal. A ação apura processos de precatórios do setor sucroalcooleiro conduzidos pelo magistrado.

A busca integra um procedimento correicional extraordinário determinado pelo corregedor-nacional de Justiça, ministro Benedito Gonçalves. Newton Ramos segue no cargo, trabalhando normalmente, e ainda deve ser ouvido no procedimento.

Newton Ramos é apontado como integrante da chamada "Turma do KN", referência ao ministro do STF Kassio Nunes Marques, que atuou no TRF-1 antes de ir para a Corte. Ele foi juiz auxiliar de Nunes Marques quando este ainda estava no tribunal.

Na terça-feira (22), veio a público que a PF encontrou no celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro um contrato do escritório da mulher de Newton, Camilla Ramos, que previa honorários de até R$ 427 milhões em ações sobre precatórios de usinas de açúcar.

Os dividendos das usinas somavam R$ 8,5 bilhões e eram de interesse do Banco Master. Mensagens extraídas do celular de Vorcaro mostram Camilla Ramos celebrando um voto de Nunes Marques sobre os precatórios.

Há também registros de que o desembargador pedia favores a Vorcaro e à sua equipe, como diárias em hotéis de luxo, ingressos para shows e entradas para a Fórmula 1.

Em nota, Newton Ramos disse que a correição teve o objetivo de levantar informações em processos que envolvem o setor sucroalcooleiro. Afirmou que segue atuando nos demais processos sob sua responsabilidade e que está à disposição para prestar esclarecimentos.

Procurado, o gabinete de Kassio Nunes Marques negou irregularidades.

O ministro nunca votou a favor de Daniel Vorcaro, nunca trocou mensagens com ele e nem pediu nada ao banqueiro.

A nota classificou como "irresponsáveis quaisquer tentativas" de relacionar a atuação do ministro com serviços prestados por terceiros.

"Ao chegar nesse desembargador, é claro que também se chega perto do ministro Kassio Nunes Marques", disse o cientista político Cláudio Couto, professor ouvido pelo UOL News, lembrando que o CNJ é presidido pelo presidente do STF, hoje o ministro Edson Fachin.

Segundo Couto, a suspeita envolve "venda de sentença" e, dependendo do que a investigação trouxer, também "tráfico de influência". Ele ressaltou que o caso ainda está no campo das suspeitas, e que faltam elementos para afirmar "categoricamente" que Nunes Marques tenha sido cooptado.

Chegar a Newton Ramos, para analistas, é uma forma de chegar perto de Nunes Marques sem mirar diretamente o ministro do STF. A TV Sim Brasil já mostrou como o contrato de R$ 427 milhões liga a "Turma do KN" ao caso Vorcaro.

Nos últimos dias, a pressão sobre Kassio Nunes Marques dentro do STF já vinha subindo após os vazamentos do caso.

Mais cedo nesta quinta, a TV Sim Brasil explicou a relação entre o desembargador e a "Turma do KN".

O que acontece agora

Newton Ramos segue no cargo e ainda deve ser ouvido no procedimento correicional aberto por Benedito Gonçalves. Por ser procedimento sigiloso, a Polícia Federal não deu mais detalhes, e o caso pode virar sindicância se forem encontrados indícios de fatos graves.