O atacante francês Kylian Mbappé perdeu três patrocínios chineses em menos de 24 horas depois de chamar Mao Tsé-Tung, fundador da República Popular da China, de "um cara qualquer — acho que ele é um ditador chinês", em trecho de entrevista que viralizou nesta semana.
As empresas Mengniu Dairy, Shanghai Milkground e Eastroc encerraram as parcerias com o jogador do Real Madrid. A CCTV, emissora estatal, retirou do ar publicidade de Mbappé, e plataformas chinesas restringiram o acesso às contas dele.
O jornal estatal Global Times publicou editorial dizendo que "a tolerância de longa data do clube" contribuiu para as declarações de Mbappé. O episódio reacende o risco comercial que marcas e atletas internacionais enfrentam no mercado chinês, anos depois de casos parecidos.
Mbappé pediu desculpas em francês, chinês e inglês. "Meu comentário foi impensado, e agora entendo que magoou muitas pessoas na China e nas comunidades chinesas ao redor do mundo", escreveu o atacante, segundo a Folha.
O Real Madrid também se pronunciou. "O Real Madrid deseja expressar suas desculpas ao povo chinês por qualquer ofensa causada pelas recentes declarações de nosso jogador Kylian Mbappé", informou o clube em comunicado.
O grupo chinês CMG, que supervisiona a CCTV, suspendeu as transmissões da La Liga, a segunda liga de futebol mais rica do mundo.
Em coletiva, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Guo Jiakun, disse: "Levamos a sério o pedido de desculpas feito pelo indivíduo em questão".
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Por que a China reage tão rápido a episódios assim?
A reação segue um roteiro já visto no país: indignação nas redes sociais, afastamento de patrocinadores, restrição em plataformas digitais e intervenção do governo. A Nike havia rompido contrato de 20 anos com Mbappé em setembro, por outro motivo.
Em 2018, a Dolce & Gabbana teve desfile cancelado em Xangai. Em 2019, Versace, Dior, LVMH e Coach pediram desculpas por produtos considerados ofensivos à soberania chinesa.
H&M, Nike e Adidas enfrentaram boicotes ligados ao algodão de Xinjiang, e a NBA rompeu com a CCTV depois que um dirigente do Houston Rockets apoiou manifestantes de Hong Kong.
"Você não precisa pensar como um chinês para ter sucesso na China, mas precisa entender como o público chinês vai reagir e as implicações culturais de não fazer esse autocontrole", afirmou Michael MacRitchie, do MGI Group, à CNN Brasil.
O risco não é só de atletas estrangeiros. Neymar também tem contratos comerciais no mercado chinês, caso da bebida Ranbushui, lançada em março com a marca local OriLabo.
A China já usou pressão comercial contra o Brasil em outras frentes: suspendeu a compra de carne bovina de um frigorífico da MBRF em São Paulo na semana passada, em episódio sem relação com o caso Mbappé.
O que acontece agora
A La Liga afirmou que "lamenta profundamente a ofensa" causada pelos comentários, e seu presidente, Javier Tebas, reforçou a importância de preservar a relação com o país.
Ainda não há data para a CCTV retomar as transmissões do campeonato espanhol, nem sinal de que os patrocinadores chineses vão reverter a decisão de encerrar os contratos com Mbappé.































