As importações brasileiras de aço laminado da China devem chegar a 4,9 milhões de toneladas em 2026, mais que o dobro da média histórica, segundo o Instituto Aço Brasil. Por trás da avalanche não estão só os subsídios do governo chinês à siderurgia.

A crise imobiliária chinesa reduz a demanda interna e empurra a produção para fora do país.

O volume é mais do que o dobro da média de 2,2 milhões de toneladas registrada entre 2000 e 2019, segundo o instituto. As importações indiretas, o aço embutido em carros, máquinas e equipamentos, devem somar 7,2 milhões de toneladas neste ano.

A China concentra 52% da produção mundial de aço, segundo o Instituto Aço Brasil, e já exportou em ritmo recorde neste ano. O tema dominou o congresso da entidade, em São Paulo, nos dias 29 e 30 de setembro.

Por que a China exporta tanto aço agora?

A explicação central é demográfica e imobiliária, não apenas industrial. Desde 2022 a população chinesa encolhe, e o ritmo de urbanização, que consumia aço em obras e moradia, perdeu força.

"Nas nossas economias, quando o mercado cai e não há demanda, nós fechamos as plantas", disse o ex-embaixador do México na China, Jorge Guajardo, sócio da consultoria DGA Group, no congresso do Aço Brasil.

Segundo o Banco Mundial, o setor imobiliário e sua cadeia de fornecedores respondiam por cerca de 30% da economia chinesa em 2021. Desde então, as vendas de imóveis caíram pela metade e os preços reais recuaram 23%.

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Sem absorver o aço em casa, a siderurgia chinesa precisa escoar a produção lá fora, e o Brasil virou um dos destinos dessa sobra industrial.

O que o governo brasileiro já fez?

O Brasil aplicou direito antidumping definitivo sobre aços pré-pintados da China e da Índia em janeiro, e elevou para 25% a alíquota de importação de nove categorias de produtos siderúrgicos. Em fevereiro, veio o antidumping sobre laminados planos a frio e revestidos planos chineses.

As medidas já mudam o quadro. A participação da China, que em setembro havia chegado a 19% do mercado brasileiro, caiu de um pico de 64% para 50% nas importações acumuladas até agosto, segundo a Bloomberg Línea.

"Isso não é um problema temporário ou cíclico. É estrutural", afirmou Marco Polo De Mello Lopes, presidente do Instituto Aço Brasil.

No mesmo período, as importações vindas do Vietnã saltaram mais de 500%. Jorge Oliveira, executivo da ArcelorMittal Brasil, alertou para o risco de triangulação.

Segundo ele, remessas do Vietnã, da Malásia, da Indonésia e do Egito, alguns países com investimento do próprio setor chinês, podem travar a queda das importações até o fim do ano.

André Gerdau Johannpeter, presidente da Gerdau, cobrou "uma política de Estado de longo prazo" para permitir investimento e competição no setor no Brasil. Um ex-embaixador já havia associado as importações chinesas a risco para empregos na indústria nacional.

O que acontece agora

As siderúrgicas brasileiras já pedem novas medidas. O Instituto Aço Brasil defende o modelo de cota rígida, com teto de importação por país que barra novos volumes ao ser atingido.

O setor também monitora se as rotas alternativas, como Vietnã e Egito, vão virar porta de entrada indireta para o aço chinês mesmo com as barreiras já aplicadas.