Protestos de estudantes e sindicatos levaram entre 250 mil e 450 mil pessoas às ruas da França nesta terça-feira (6), segundo o governo e os organizadores. A mobilização, iniciada em 21 de setembro contra a falta de professores, é a maior do tipo em décadas.

Mais de 5 mil pessoas foram detidas desde o início dos atos, a maioria adolescentes sem antecedentes criminais, segundo o Metrópoles. Professores e servidores públicos também entraram em greve nesta terça contra o congelamento salarial proposto pelo governo.

A escalada deixou feridos graves. Em Lens, no norte do país, um estudante de 15 anos perdeu uma das mãos ao pegar uma granada de efeito moral usada pela polícia, segundo a CNN Brasil. Em Tours, outro jovem perdeu a visão de um olho.

O prefeito de Lens, François-Xavier Lauch, disse que uma investigação foi aberta. Outro adolescente, identificado apenas como Eden L., 14 anos, ficou gravemente ferido após ser atingido à queima-roupa por um lançador de gás lacrimogêneo em Saint-Ouen-l'Aumône.

Segundo advogados e familiares citados pela CNN Brasil, ele não participava da manifestação no momento do disparo.

As autoridades francesas devem cumprir suas obrigações em relação aos direitos humanos e interromper a resposta policial desproporcional observada nos últimos dias aos protestos estudantis, alertou a Anistia Internacional.

A Comissão Consultiva Nacional de Direitos Humanos da França (CNCDH) também cobrou moderação das autoridades e questionou a abertura de processos contra jovens manifestantes.

Por que os estudantes foram às ruas

Os estudantes protestam porque as escolas francesas têm hoje menos professores que em 2008, apesar de 250 mil alunos a mais, com 70% das salas públicas com mais de 30 estudantes, segundo dados reunidos pelo Metrópoles.

Para os manifestantes, a crise vem de anos de falta de investimento, não apenas de medidas recentes do governo. O movimento nasceu numa escola da região metropolitana de Paris e ganhou o país depois que a instituição recebeu reforço de pessoal.

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O que o governo responde

O governo do primeiro-ministro Sébastien Lecornu propõe cortar 54 bilhões de euros do orçamento de 2027, com a eliminação de 1.588 postos de professor e o fechamento de cerca de 400 escolas, segundo a InfoMoney.

A proposta também eleva o orçamento de defesa de US$ 64 bi para US$ 71,2 bi e congela salários do funcionalismo público.

Lecornu convocou reunião de emergência e determinou que os ministros apresentem propostas de ajuste até o fim de outubro. O ministro da Justiça, Gérald Darmanin, orientou promotores a adotar resposta firme contra manifestantes.

O ministro da Educação se reuniu com líderes estudantis, mas não houve acordo. "Na França, usamos a expressão fin de règne", disse o cientista político Jean-Yves Camus à InfoMoney, sobre o clima de fim de ciclo que cerca o governo.

A dívida pública francesa ronda 120% do PIB. O rendimento dos títulos de 10 anos ficou perto de 5% nesta semana, um dos mais altos da União Europeia.

Pesquisas recentes apontam a candidata de extrema direita Marine Le Pen à frente dos adversários para a eleição de 2027. A perspectiva alimenta o nervosismo dos mercados sobre a capacidade do governo de administrar a crise.

O que acontece agora

Os ministros franceses têm até o fim de outubro para apresentar propostas de ajuste ao orçamento de 2027, por determinação de Lecornu. O impasse com os estudantes segue sem solução, e o ministério da Educação não marcou nova rodada de conversas.

O bloqueio de escolas e faculdades no país já durava duas semanas antes da escalada desta terça.

Na semana passada, o chefe da polícia de Paris já dizia que o protesto estudantil tinha saído do controle. O caso do adolescente ferido em Lens segue sob investigação.