O Banco Central reduziu, nesta quinta-feira (24), a previsão de crescimento do PIB de 2026 de 2% para 1,8%, e projetou avanço de apenas 1,4% para 2027. A inflação só deve chegar ao centro da meta a partir de 2029, revela o mesmo relatório.

A revisão para baixo reflete um segundo trimestre com composição de crescimento menos favorável e indicadores fracos no início do terceiro trimestre.

Segundo o relatório, "a desaceleração no segundo trimestre, que deve prosseguir no terceiro, faz parte de um quadro mais amplo de diminuição do dinamismo da atividade econômica desde o final de 2024", quando começou o ciclo de aperto monetário.

O crescimento do PIB no segundo trimestre foi de apenas 0,5%. Entre os setores, a projeção anual de indústria caiu de 2,3% para 1,5%, e a de serviços recuou de 1,9% para 1,7%. A agropecuária foi na direção contrária, subindo de 1,7% para 2,8%.

A leitura setorial reforça um ponto que já aparecia em outra conta: o PIB do Brasil pode variar bastante sem que a economia real cresça de fato, a depender de qual setor puxa o número.

Gabriel Galípolo em comissão do Senado, cercado por outras pessoas
Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central, em comissão no Senado (imagem de arquivo) — Foto: Agência Senado/Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

Quem mais projeta o PIB, e com que número

O corte do BC não é unânime entre as instituições que calculam o crescimento do país. O Ministério da Fazenda projeta 2,3% para 2027, dado que também foi revisado para baixo nesta semana, mas segue mais otimista que o Banco Central.

Já para 2027, a estimativa do BC está alinhada ao mercado financeiro: o Boletim Focus de 21 de setembro projeta alta de 1,43% do PIB no próximo ano, quase idêntica à do BC.

O Fundo Monetário Internacional, em revisão de 8 de julho, ainda trabalhava com 2,4% para o Brasil, ante 1,9% em abril, visão mais otimista que a de qualquer uma das outras fontes.

Um dia antes do corte do BC, outra leitura do mercado ainda havia subido a previsão de crescimento do país para 2%, sinal de que o consenso sobre o ritmo da economia segue em movimento.

Por que os juros seguem no centro da explicação

A perda de força da atividade reflete os efeitos dos juros altos por período prolongado. Na quarta-feira (16), o Copom cortou a Selic pela quinta vez seguida, em 0,25 ponto percentual, levando a taxa básica a 13,75% ao ano.

Mesmo com o ciclo de cortes, o IPCA acumula 4,22% em 12 meses até agosto, segundo o IBGE. O valor está acima do centro da meta de 3%, mas ainda dentro da banda de tolerância, entre 1,5% e 4,5%.

O horizonte relevante da política monetária agora é o primeiro trimestre de 2028, quando o BC projeta inflação de 3,2%.

O documento cita a diminuição dos impulsos fiscal e creditício como fator de risco, no mesmo momento em que a dívida pública bate 82,5% do PIB.

O ponto em aberto

O BC estima que a inflação só chegue ao centro da meta de 3% no primeiro trimestre de 2029, o último período considerado no relatório. A pergunta que fica é até quando a atividade econômica vai carregar o peso desse ajuste mais longo.