O trabalho por aplicativo chegou a 2 milhões de pessoas no Brasil em 2025, alta de 9,1% em um ano, segundo estudo do IBGE com o MPT e a Unicamp. Mas 72,1% desses trabalhadores estão na informalidade, quase o dobro do índice entre quem não trabalha por plataforma (42,7%).

Quem trabalha por aplicativo ganha R$ 16,20 por hora, 12% menos que os R$ 18,40 de quem está fora das plataformas. Para alcançar a mesma renda, é preciso trabalhar 5,4 horas a mais por semana.

O setor de transporte e entregas já é dominado pelo modelo. Três em cada quatro profissionais de armazenagem e correio atuam por plataforma, e o número de entregadores cresceu 18,6% entre 2024 e 2025. Entre eles, 84,4% são homens.

Por que as pessoas topam trabalhar assim?

A resposta muda por categoria. Entre motoristas de aplicativo, 33,4% dizem que a falta de emprego pesa mais do que a flexibilidade, citada por 27,2%. Entre entregadores, os dois motivos praticamente empatam, 26,9% contra 26,6%.

A cobertura previdenciária também é menor entre quem trabalha por plataforma: 34% têm previdência, contra 63% dos demais trabalhadores da iniciativa privada.

"As plataformas combinam baixa proteção social, jornadas extensas e menores rendimentos por hora, mantendo o controle sobre preços, clientes e organização da atividade", resume José Dari Krein, do Cesit/Unicamp.

No Senado, o projeto de lei 5.253/2026, do senador Sérgio Petecão (PSD-AC), propõe jornada máxima de 10 horas por dia e reserva financeira para férias e 13º a quem roda com habitualidade pelos aplicativos.

O tema também está no radar do STF, que pautou a uberização entre os temas do segundo semestre. Hoje, a lei brasileira não reconhece vínculo empregatício entre motoristas e entregadores e as plataformas.

O tema já gerou embate direto: em setembro, entregadores denunciaram a Keeta e a 99Food ao MPT por bônus prometidos durante uma greve. Em junho, a Organização Internacional do Trabalho aprovou uma convenção voltada à proteção desses trabalhadores.

O que os números escondem

Os dados do IBGE desmontam parte do discurso sobre o trabalho por aplicativo. Entre entregadores, flexibilidade e falta de opção pesam quase o mesmo. Entre motoristas, é a ausência de emprego, não a liberdade de horário, que mais leva ao aplicativo.

A diferença importa para o debate no Congresso. Regular jornada e proteção social responde a quem foi empurrado para a plataforma; preservar a autonomia responde a quem escolheu por vontade própria. O desafio é servir aos dois grupos com a mesma lei.