Mais de 200 policiais militares ocuparam nesta segunda-feira (24) as comunidades de Parada de Lucas e Vigário Geral, na Zona Norte do Rio, em operação que fechou a Avenida Brasil e a Linha Vermelha. Além de combater roubos de carga e disputas entre facções, a ação mira a repressão a rituais de matriz africana promovida pelo tráfico local.

Segundo a corporação, participaram do policiamento unidades especializadas como o Bope, o Batalhão de Ações com Cães e o Grupamento Aeromóvel. Foram mobilizados 40 viaturas, 15 motocicletas e 5 veículos blindados, além de drone e aeronaves de apoio.

Moradores relataram intenso tiroteio durante a chegada das equipes. Quatro escolas municipais suspenderam as aulas nesta manhã para garantir a segurança de alunos e funcionários. A ação ocorre dois dias depois de uma operação no Complexo de Israel, em 22 de agosto.

O que é o Complexo de Israel

Cidade Alta, Vigário Geral, Parada de Lucas, Cinco Bocas e Pica-Pau formam o território conhecido como Complexo de Israel, batizado por traficantes que se identificam como evangélicos e ostentam a Estrela de Davi e a bandeira de Israel como símbolos de domínio territorial.

Nessas comunidades, o tráfico proíbe rituais de umbanda e candomblé, fecha terreiros e ameaça praticantes de religiões de matriz africana. A prática, batizada por pesquisadores de narcopentecostalismo, transforma a fé em instrumento de controle territorial, não em disputa apenas comercial entre facções.

Já em 2021, uma CPI da Assembleia do Rio, relatada pelo deputado Átila Nunes (MDB), apontava uma "rotina de repressão e perseguição do tráfico a praticantes e templos" nessas comunidades. Segundo o relator, o esquema também lavava dinheiro do tráfico como doação religiosa.

Casos de perseguição religiosa ligada ao tráfico não se limitam ao Rio. Em São Paulo, o Ministério Público já investigou a entrada armada de policiais em uma escola infantil após reclamação sobre uma boneca do orixá Iansã usada em atividade pedagógica.

A fronteira entre os dois tipos de violência é o que distingue racismo religioso de intolerância religiosa nos casos como esse.

O que acontece agora

A Polícia Militar não divulgou, até a manhã desta segunda-feira, balanço de mortos, feridos ou presos na ação. A previsão é de que o policiamento seja mantido na região ao longo do dia, com reforço nos acessos à Avenida Brasil.

Foi a segunda operação de grande porte no complexo em menos de uma semana, depois da megaoperação de 21 de agosto que deixou um motorista de ônibus baleado.