O contrabando de canetas emagrecedoras entre o Paraguai e o Brasil disparou 1.446% em 2026. A Receita Federal apreendeu 115.647 unidades neste ano, ante 7.479 em todo o 2025, mais que o dobro do total já apreendido até junho, quando o semestre somava 158,3 mil canetas.

O Paraná concentra 61,2% das apreensões do país. Só Foz do Iguaçu responde por 71.600 canetas, quase metade (45,2%) de tudo que a Receita recolheu no Brasil.

Em valor, o total apreendido no primeiro semestre chegou a R$ 108,9 milhões em medicamentos, 63,6% a mais que os R$ 66,6 milhões do mesmo período de 2025.

Por que a demanda disparou

Um estudo liderado por pesquisadores da USP aponta que a procura por remédios como Ozempic e Mounjaro passou a incluir pessoas sem indicação clínica para o tratamento, atraídas pela promessa de emagrecimento rápido.

Foi essa demanda, maior que a oferta regular nas farmácias, que abriu espaço para o contrabando ganhar escala.

Uma rede organizada, não contrabando avulso

O volume das apreensões chama atenção pelo tamanho de cada carga. Depósitos no Paraguai vendem direto ao contrabandista, sem passar pelo varejo.

Quando uma carga de 6 mil ou 7 mil ampolas sai de um depósito direto para um caminhão, autoridades de fronteira descrevem isso como uma estrutura criminal organizada, não contrabando de pequena escala.

A Anvisa alerta para o risco à saúde do produto que chega por essa via. "Produtos comprados fora de farmácias e drogarias autorizadas não oferecem garantia de procedência, composição ou conservação. Não há segurança de que o conteúdo corresponda ao rótulo", diz a agência.

Entre o material apreendido estão canetas manipuladas fora das regras, produtos falsificados e até substâncias experimentais, como a retatrutida, sem registro sanitário em nenhum país.

O que ainda não tem resposta

As apreensões cresceram mais de 14 vezes em um ano, e mesmo assim o fluxo não parou.

A pergunta que fica é se a fiscalização de fronteira consegue crescer no mesmo ritmo da demanda.

Ou se cada apreensão recorde só mostra a ponta de um mercado que já se organizou para escoar o volume que falta nas farmácias.