A Casas Bahia registrou prejuízo de mais de R$ 10 bilhões no 2º trimestre e a Marisa reverteu lucro em prejuízo, mas a Renner manteve o lucro estável no mesmo período. A diferença está no tipo de varejo e na dependência de crédito ao consumidor, alimentada pela Selic a 14% ao ano.
Os números por trás da crise
A Casas Bahia acumula dívida de R$ 17,3 bilhões e já soma oito trimestres seguidos de resultado negativo. Em agosto, o grupo fechou 298 lojas e demitiu cerca de 1.900 funcionários.
A Justiça do Trabalho suspendeu essas demissões nesta terça-feira (18) e determinou a reintegração provisória dos contratos, além de proibir novos cortes em massa sem negociação prévia com o sindicato.
É a segunda onda de reestruturação desde 2023: somando as duas fases, já são cerca de 355 lojas fechadas e 11,6 mil empregos eliminados. Segundo a empresa, os pesados investimentos em tecnologia feitos desde 2019 não geraram retorno a tempo de sustentar o negócio.
A Marabraz também entrou em recuperação judicial, com R$ 140 milhões em passivo. O problema ali é outro: disputas de governança entre sócios imobilizaram garantias que poderiam ter sustentado a renegociação da dívida.
Por que a Renner não sente o mesmo tombo
A Renner lucrou R$ 404,6 milhões no 2º trimestre, praticamente igual aos R$ 404,5 milhões de um ano antes. A receita de varejo somou R$ 3,69 bilhões, alta de 1,1%.
Mas o resultado não é isento de aperto. A empresa cortou a projeção de crescimento da receita para 2026, de uma faixa entre 9% e 13% para apenas 4% a 8%. É sinal de que o consumo também pesa sobre quem está resistindo.
A diferença central está no modelo de negócio. Lojas de bens duráveis, como móveis e eletrodomésticos, dependem de vendas parceladas e de crédito caro para o consumidor. Supermercados, farmácias e moda de giro rápido sentem menos esse peso.
Jessica Costa, da consultoria Agr Consultores, resume o mecanismo: "'24 vezes sem juros' não é promoção, é produto financeiro bancado por capital de giro".
O que isso significa para o consumidor
O caso da Casas Bahia, que teve as demissões em massa suspensas pela Justiça, e o da Marisa não são sobre uma empresa mal administrada isoladamente.
Eles mostram o limite de um modelo que cresceu vendendo a prazo em um país que agora tem 82% das famílias endividadas, segundo dado de julho.
Enquanto a Selic continuar em 14% ao ano, o crédito para comprar geladeira ou sofá parcelado segue caro tanto para quem vende quanto para quem compra. A pergunta que fica é até quando o modelo de vender fiado consegue segurar o próprio peso.


























