Casas Bahia e Marabraz pediram recuperação judicial no mesmo dia, nesta segunda-feira (17). Não é coincidência isolada. O varejo brasileiro perde clientes para marketplaces chineses, disputa o bolso do consumidor com as apostas esportivas e ainda paga juros de 14% ao ano para se financiar.

As duas empresas protocolaram os pedidos nesta segunda: a Casas Bahia, com R$ 17,3 bilhões em obrigações, e a Marabraz, tradicional rede de móveis de São Paulo, com R$ 140 milhões.

É o mesmo cenário que levou as Lojas Americanas à maior recuperação judicial do varejo brasileiro, em 2023, com R$ 43 bilhões em dívidas.

Como os marketplaces chineses tomaram espaço

No 2º trimestre de 2026, a Shein cresceu 29% em usuários ativos no Brasil, para 113,1 milhões. A Shopee chegou a 130 milhões de usuários.

No mesmo período, a Casas Bahia perdeu 27% dos usuários ativos e as Americanas, 33%, segundo levantamento do BTG Pactual com dados da Sensor Tower.

A pressão é maior em moda, acessórios, decoração e eletrônicos de ticket baixo, categorias com forte sobreposição ao catálogo de Shein e AliExpress.

Itens de ticket alto, como móveis e eletrodomésticos grandes, sofrem menos com o comércio internacional, mas concorrem entre si pelo mesmo consumidor endividado.

O que as apostas esportivas tiraram do varejo

Segundo a Confederação Nacional do Comércio, cerca de R$ 100 bilhões que iriam para o varejo em 2024 foram parar em plataformas de apostas on-line.

Estimativas da consultoria Strategy&, da PwC, apontam de R$ 40 bilhões a R$ 50 bilhões por ano fora do consumo por causa das bets.

O setor de apostas já movimenta cerca de R$ 360 bilhões no Brasil, perto do tamanho do mercado de streaming. Foram 25,2 milhões de apostadores em plataformas regulamentadas no último ano, com gasto médio de R$ 122 por mês.

Segundo a NielsenIQ, 26% dos domicílios brasileiros apostam regularmente, o dobro do ano anterior. Entre quem trocou despesa doméstica por aposta, 47% cortaram gastos com alimentação e 45% reduziram o pagamento de contas da casa.

Some a isso o crédito caro. A Selic está em 14% ao ano, e tanto a Casas Bahia quanto a Marabraz citaram os juros altos como parte da crise que levou ao pedido judicial.

Por que duas varejistas quebraram no mesmo dia, e não deve ser a última

Casas Bahia e Marabraz não caíram pelo mesmo motivo único, mas pela mesma combinação: um consumidor com menos dinheiro sobrando, disputado por apostas e por lojas chinesas mais baratas, ainda pagando caro para financiar a compra a prazo.

Falta saber quantas outras varejistas de médio porte, sem o tamanho para renegociar dívida como a Casas Bahia, vão fechar as portas antes de chegar à Justiça.