O agronegócio é hoje o setor que mais cresce em número de recuperações judiciais no Brasil, à frente do varejo. Levantamento da consultoria RGF Associados mostra alta de 66% nos pedidos do setor entre junho de 2025 e junho de 2026, quase o triplo do crescimento nacional, de 20,5%.

O agro cresce mais rápido, mas o varejo pesa mais em volume

Pelo levantamento, o país foi de 6.409 para 7.726 empresas em recuperação judicial no período. O varejo tem o maior número de casos em valor absoluto, com 1.649 CNPJs e alta de 22% em 12 meses.

A Casas Bahia teve prejuízo de R$ 10,1 bilhões só no segundo trimestre e ganhou proteção judicial de 180 dias contra credores em agosto.

Na indústria de transformação, a alta foi de 9% em 12 meses, com 1.455 empresas em recuperação. Um exemplo é a fabricante de brinquedos Estrela, que protocolou plano em agosto. A saúde foi o único setor em queda no período, de 128 para 123 CNPJs.

No agronegócio, foram 1.263 produtores e empresas em recuperação judicial, 1,8 casos a cada mil ativas. A densidade é menor que a das usinas de açúcar (52,6 por mil) e dos frigoríficos (17,3 por mil), que puxam a média do agro para cima.

O caso mais citado é o da Agrogalaxy, distribuidora de insumos agrícolas que pediu recuperação judicial em 2024 com R$ 4,1 bilhões em dívidas.

Juros explicam tudo? Economistas divergem

O economista Armando Castelar, ex-diretor do BNDES, atribui parte da alta aos juros altos por período prolongado, somados ao forte aumento do endividamento das empresas nos últimos anos.

Os juros explicam parte do problema, mas não justificam tudo.

A ressalva é do professor Carlos Honorato, da Fundação Instituto de Administração (FIA). Para a economista Carla Beni, da FGV, parte da dívida remonta à pandemia, quando a Selic caiu a 2% ao ano e turbinou linhas de crédito subsidiado.

Do lado dos trabalhadores, o Dieese chama atenção para o efeito das reestruturações sobre o emprego, quando a empresa em dificuldade corta vagas. Em agosto, os gigantes do varejo já haviam fechado 1,1 mil lojas e cortado 46 mil vagas na crise do setor.

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Nem toda empresa grande passa pelo rito formal. Raízen, Grupo Pão de Açúcar e Oncoclínicas reorganizaram cerca de R$ 75 bilhões em dívidas por acordo extrajudicial com credores, caminho mais rápido e sem supervisão de um juiz.

A Raízen, aliás, vendeu uma usina de cana em Mato Grosso do Sul por R$ 705 milhões como parte do ajuste.

Em casos mais graves, o desfecho é a falência, como o de uma refinaria fluminense que devia R$ 25,7 bilhões ao Rio de Janeiro.

Há também consequência para quem administra. Na rede de móveis Marabraz, também em dificuldade financeira, a mansão do CEO foi a leilão por R$ 72,8 milhões.

O que os números ainda não respondem

O levantamento da RGF Associados é a foto de um ano, entre junho de 2025 e junho de 2026. Ele não diz se a alta é um ajuste passageiro do ciclo de crédito ou uma mudança mais estrutural no financiamento das empresas.

O setor de saúde caminhou na direção oposta no mesmo período, com queda nos pedidos, sinal de que os juros não pesam igual em todos os setores. Falta uma medida que separe esse efeito da fragilidade que já existia em cada setor.