O Sport Club Jaraguá, o Fluminense e o Remo tiveram casos de manipulação de apostas investigados neste ano. Os três compartilham o mesmo padrão. A CPI do Senado já tinha identificado, em 2025, que a aposta em lance isolado (cartão amarelo, escanteio, qualquer evento que não depende do placar final) é o ponto comum dos escândalos recentes.

O futebol brasileiro tem hoje quatro frentes de resposta a esse tipo de manipulação.

Além da CPI do Senado, agem a Unidade de Integridade do Futebol Brasileiro (UIFB), ligada à CBF, o STJD e uma sala de monitoramento que o governo promete criar até o fim do ano.

O caso mais recente é o do Sport Club Jaraguá, time catarinense que perdeu de 8 a 1 para o Juventus de Jaraguá do Sul na Série B do Campeonato Catarinense.

A empresa de monitoramento Sportradar identificou que 90% das apostas simples de handicap foram direcionadas para uma vitória do Juventus por seis gols ou mais.

Sete jogadores do Jaraguá foram suspensos preventivamente por 30 dias enquanto o caso é apurado pelo Tribunal de Justiça Desportiva de Santa Catarina. Não há, até aqui, julgamento definitivo nem condenação.

A UIFB também encaminhou o relatório da Sportradar ao Ministério Público catarinense e à Polícia Federal, sob sigilo.

O padrão que se repete

Em julho, a CBF passou a investigar o meia Lucho Acosta, do Fluminense, depois que o sistema de monitoramento identificou volume atípico de apostas concentradas justamente em um cartão amarelo dele. O caso segue em apuração, sem conclusão até a publicação desta matéria.

Em agosto, o STJD multou o Remo em R$ 10 mil e suspendeu o técnico Diego Ziegg por 15 dias e o jogador Marllon por uma partida, por infrações num jogo da Copa do Brasil contra o Santos.

A CPI da Manipulação de Jogos, do Senado, já havia identificado esse padrão em 2025. "Praticamente todos os recentes escândalos de manipulação de competições estavam relacionados com apostas em eventos isolados", diz o relatório final.

A CPI pediu o indiciamento de Bruno Tolentino, tio do jogador Lucas Paquetá, e dos empresários William Pereira Rogatto e Thiago Chambó Andrade. É um pedido, não uma condenação.

Entre as propostas da CPI está aumentar a pena de fraude em evento esportivo, hoje de 2 a 6 anos, para 4 a 10 anos de prisão, além de criar o crime de fraude no mercado de apostas.

A resposta que ainda está em construção

O secretário de Apostas Esportivas do Ministério da Fazenda, Giovanni Rocco, anunciou que o governo vai criar uma sala para acompanhar em tempo real as oscilações das odds das casas de apostas.

"É como se fosse uma sala do Banco Central olhando as bolsas do mundo e os comportamentos anômalos", disse Rocco.

Segundo ele, uma descarga de apostas fora do padrão antes de uma partida vai gerar alerta automático, permitindo que a própria casa de apostas feche o mercado.

A estrutura, formalizada pela Política Nacional de Prevenção e Enfrentamento à Manipulação de Resultados Esportivos, ainda não está no ar.

O que ainda falta fechar

As quatro frentes agem depois que a aposta suspeita já foi feita. A sala de situação promete mudar isso, monitorando a odd antes da bola rolar.

Falta saber se ela vai chegar a tempo do próximo lance isolado que virar alvo, e se vai ser rápida o suficiente para impedir a aposta, não só flagrá-la depois.