O decano do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Gilmar Mendes, classificou nesta quarta-feira (19) como um "equívoco" as promessas de campanha para o impeachment de ministros da Corte. Segundo ele, o discurso tem apelo eleitoral, mas enfrentaria "imensas dificuldades" para virar realidade no Senado.

"Certamente, algumas pesquisas indicam que isto tem um apelo eleitoral", disse Mendes a jornalistas em Brasília. "É um equívoco, mas é um equívoco compreensível."

Candidatos de direita transformaram o impeachment de ministros do STF em bandeira central para a disputa ao Senado em 2026.

O alvo mais citado é o ministro Alexandre de Moraes, por decisões que atingiram o ex-presidente Jair Bolsonaro no inquérito da tentativa de golpe de 2022.

Entre os que defendem a medida estão candidatos ao Senado apoiados pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e pelo ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema (Novo-MG). Nenhum dos dois é autor formal de um pedido de impeachment contra Moraes.

O papel deles é político, puxar a bandeira nos palanques e transferir capital eleitoral para quem assina essa pauta no Senado.

A conta que dá peso ao debate

A eleição de 2026 vai renovar 54 das 81 cadeiras do Senado. É o mesmo número que a Constituição exige para cassar um ministro do STF.

São necessários dois terços dos votos, ou 54 senadores, já que só o Senado tem competência para julgar esse tipo de processo, por crime de responsabilidade.

Questionado se a possibilidade de candidatos com essa bandeira assumirem cadeiras no Senado o preocupa, Mendes foi direto: "Não, absolutamente não".

Ele acrescentou que "entre o pensamento e a ação, o pensamento e o gesto, vai uma distância enorme", e que mesmo eleitos, esses senadores enfrentariam resistência institucional para tirar a proposta do papel.

"Sou enfermeiro que já viu sangue. Então, não me impressionam essas promessas de campanha", completou o ministro.

O tema ganhou novo fôlego na disputa presidencial depois que o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, chamou a candidatura de Flávio Bolsonaro de "risco institucional" durante uma sabatina nesta semana.

Ex-presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Mendes também reafirmou a confiança no sistema eletrônico de votação do país, citando observação da Organização dos Estados Americanos (OEA) que atestou a integridade do processo.

Sobre cenários de composição do Senado após a eleição, o ministro preferiu não especular: "Não avalio, não imagino e também não vou trabalhar sobre cenários neste momento".