Quem não tolera bem laticínios aprende a caçar a palavra "zero" na embalagem do leite. Ela não significa ausência de lactose: a indústria adiciona uma enzima que quebra quase todo o açúcar antes de a caixa chegar à prateleira, mas uma fração sempre resta.

Todo leite de vaca carrega lactose naturalmente, entre 4 e 5 gramas a cada 100 mililitros. Na indústria, a enzima lactase entra na embalagem e faz o trabalho que o intestino de quem é intolerante não consegue.

Ela parte o açúcar em glicose e galactose, absorvidas sem esforço pelo corpo.

Essa quebra nunca é total. É esse resíduo que o rótulo, ao dizer "zero", não mostra.

"A indústria faz esse trabalho por você, mas não consegue garantir a quebra de toda a lactose. Sempre resta um resíduo mínimo", explica Giovanna Pisanelli, doutora em Ciência dos Alimentos.

Qual é o limite permitido por lei?

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) permite até 100 miligramas de lactose a cada 100 mililitros para o produto usar o rótulo "sem lactose". Entre 100 miligramas e 1 grama, a legislação classifica o item como de baixo teor.

Checar essa diferença no rótulo pode explicar por que uma pessoa muito sensível ainda sente desconforto: nem todo produto vendido como "lactose reduzida" está na faixa mais baixa.

Esse resíduo faz alguém passar mal?

"É muito raro alguém ter sintomas com até 100 miligramas de lactose. Para desencadear desconforto, costumam ser necessárias quantidades bem maiores, na casa dos gramas", afirma Patrícia Holanda Almeida, gastroenterologista do Einstein Hospital Israelita.

Quando o consumidor sente mal-estar mesmo com o leite "zero", o motivo mais provável não é esse resíduo mínimo, e sim outro alimento da dieta ou uma sensibilidade que vai além da lactose.

Na fiscalização feita pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) entre 2021 e 2025, a conformidade dos lácteos analisados ficou acima de 97% em todos os anos, sinal de que o resíduo raramente ultrapassa o limite permitido.