A carta golpista de Flávio Bolsonaro, divulgada nesta quarta-feira (28) questionando a vitória de Lula, interessa à estratégia eleitoral de Donald Trump. A cinco dias dos midterms, o presidente dos EUA usa a alegação de fraude no Brasil para ligar a esquerda a irregularidades eleitorais.

A leitura é da CNN Brasil. Para o analista de Internacional Lourival Sant'Anna, o conteúdo da carta de Flávio se encaixa na estratégia que Trump já vinha montando para as eleições de meio de mandato dos Estados Unidos, marcadas para 3 de novembro.

De imediato, o interesse de Donald Trump nessa versão de fraude na eleição do Brasil é para associar a fraude à vitória da esquerda, porque na terça-feira, provavelmente, os republicanos serão derrotados pelos democratas na eleição de meio de mandato.

A frase é de Sant'Anna, no programa CNN Prime Time desta quarta-feira.

O que está em jogo nos midterms

Em jogo estão as 435 cadeiras da Câmara e 35 das 100 do Senado dos EUA. Os republicanos têm hoje 218 cadeiras contra 214 dos democratas, que precisam de apenas 3 a mais para virar a maioria.

As projeções são favoráveis aos democratas, mas com margens diferentes. O Race to The White House dá a eles 88,3% de chance de maioria, com ao menos 233 assentos.

Já o Cook Political Report projeta cenário mais equilibrado, de 213 a 201. O resultado real depende de 21 distritos considerados de campo de batalha, onde a eleição ainda pode virar para qualquer lado.

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Segundo Sant'Anna, Trump vinha preparando a narrativa de fraude há tempos, usando o Brasil como exemplo da tese de que a esquerda vence eleições por meio de irregularidade. É o mesmo argumento que ele aplica à própria derrota de 2020, até hoje não reconhecida.

"Ele utiliza o Brasil para reforçar essa tese de que a esquerda vence eleições por meio da fraude", disse o analista.

Há também um interesse de médio prazo na análise. Trump quer reduzir a influência chinesa no Brasil, e a eleição de Flávio seria o caminho mais direto para esse objetivo.

Como a vitória de Flávio não se confirmou, Trump tentaria articular com o próprio Lula resultados parecidos. Sant'Anna cita uma reunião ocorrida pouco antes de uma visita do presidente americano a Pequim como exemplo dessa aproximação.

O tema já havia aparecido em outro contexto. As tarifas americanas ao Brasil correm o risco de produzir efeito contrário ao pretendido, empurrando o país para mais perto de Pequim.

O próprio Trump evitou se comprometer com o teor da carta. Nesta quarta, ele repetiu que não vai se envolver na eleição brasileira, mesmo com o documento de Flávio circulando como munição política.

O que acontece agora

Os eleitores americanos votam na terça-feira (3) para definir quem controla a Câmara e parte do Senado pelos próximos dois anos. Derrota republicana reduz o poder de Trump no Congresso.

Esse resultado também pode esvaziar o peso da narrativa de fraude que ele hoje aplica ao caso brasileiro.