O vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) citou o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra ao votar neste domingo (4) em São Paulo, por volta das 12h10. Disse que quem tem "saudade de ditadura" e o tem como ídolo "não devia nem pleitear o voto popular".
Ustra morreu há 11 anos, mas seu nome segue aparecendo em campanhas eleitorais.
Quem foi Ustra
Ustra chefiou o DOI-CODI do II Exército, em São Paulo, entre 1970 e 1974, auge da repressão da ditadura militar. Ao órgão sob seu comando são atribuídas cerca de 2 mil prisões políticas e mais de 500 casos de tortura no período.
Em 2008, a 23ª Vara Cível de São Paulo o reconheceu judicialmente como torturador, em ação movida pela família Teles — primeiro militar da ditadura com esse reconhecimento na Justiça. A decisão foi confirmada em segunda instância em 2012, 18 anos antes desta eleição.
Ustra negou as acusações até morrer, em outubro de 2015, aos 83 anos, de câncer. Antes disso, prestou depoimento à Comissão Nacional da Verdade, em maio de 2013.
Por que o nome ainda divide discurso de campanha
Em 17 de abril de 2016, o então deputado Jair Bolsonaro dedicou seu voto pelo impeachment de Dilma Rousseff "à memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o terror de Dilma Rousseff".
A frase remetia ao fato de Dilma ter sido presa e torturada na ditadura.
Em 2019, Bolsonaro chamou Ustra publicamente de "herói nacional".
A frase de Alckmin reativa essa disputa de memória num momento em que o tema da democracia também vira argumento de campanha. Ele citou a condenação de Bolsonaro por tentativa de golpe, que tirou do ex-presidente o direito de votar nesta eleição.
A investigação da trama golpista, batizada "Punhal Verde e Amarelo", apontou plano para deter autoridades, fechar o Congresso e assassinar Lula, Alckmin e o ministro Alexandre de Moraes. Bolsonaro foi condenado a 27 anos e 3 meses de prisão, entre os 34 denunciados no processo.
Lula já havia dito publicamente que quer vencer a eleição para manter Bolsonaro na cadeia, antes mesmo do voto de hoje.
A disputa sobre a memória da ditadura segue viva em outras frentes: um livro de Flávio Bolsonaro, lançado nesta campanha, nega que 1964 tenha sido golpe e questiona as urnas eletrônicas.
O ponto em aberto
Passados 41 anos do fim da ditadura, nomes como o de Ustra seguem como divisor de águas no discurso eleitoral. A pergunta que o episódio de hoje deixa é até quando essa memória vai continuar disputada nas urnas.
































