O Japão está a poucos meses de esgotar os estoques de ítrio, metal essencial para motores a jato, semicondutores e veículos, e pediu aos Estados Unidos que pressionem a China a afrouxar os controles de exportação de terras raras, segundo o Financial Times.

A escassez pode chegar no fim deste ano, reproduziu a Folha nesta terça (20).

O preço do óxido de ítrio fora da China disparou para US$ 1.150 por quilo, alta de 179 vezes em relação a dois anos atrás, segundo dados da consultoria Argus. Dentro da China, o mesmo quilo custa US$ 9.

A diferença mostra o tamanho do controle chinês sobre a cadeia. De acordo com a CNN Brasil, o país domina cerca de 94% da produção global de ímãs permanentes sinterizados e concentra as tecnologias de separação e refino, a etapa mais valiosa do processo.

"O prazo não é de anos, mas de meses, e a questão é como sobreviver ao próximo ano", disse um funcionário do governo japonês ao Financial Times.

"Se todos agirem agora, tudo ficará bem. Se todos ignorarem o problema, haverá um risco sistêmico para a economia mundial", completou o funcionário.

A China reforçou os controles de exportação ao Japão em resposta a declarações da primeira-ministra Sanae Takaichi sobre a ameaça de um conflito envolvendo Taiwan, e usa o domínio da cadeia como instrumento de pressão na guerra comercial com o governo de Donald Trump.

Por que o Brasil não lucra com a crise das terras raras?

O Brasil não lucra mais com a crise porque só exporta o concentrado bruto. O país tem a 2ª maior reserva de terras raras do mundo, 21 milhões de toneladas, 23% do total, mas ainda não tem planta própria para separar os elementos.

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Em Minaçu (GO) fica a Serra Verde, única mineradora com exploração comercial de terras raras do país. Quem compra o concentrado e faz a separação é quem fica com o valor e o poder de barganha.

Ao longo de 2026, o município exportou 678 toneladas para a China e apenas 51 kg para os Estados Unidos, segundo levantamento da Agência Pública.

A Serra Verde foi comprada pela americana USA Rare Earth em abril, com contrato de fornecimento de 15 anos para 100% da produção. A compradora recebeu até US$ 1,6 bilhão em financiamento do governo dos Estados Unidos, que também tomou participação acionária na empresa.

O samário extraído em Goiás é usado em mísseis Tomahawk de longo alcance. Só nas quatro primeiras semanas de operações em março, os EUA dispararam mais de 850 unidades do míssil.

A disputa também passou pela diplomacia. Após uma ligação entre Lula e Xi Jinping em julho, o presidente do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), Pablo Cesário, disse que a China sinalizou abertura a parcerias, inclusive em tecnologia de separação.

Os EUA, por sua vez, propuseram um acordo de cooperação em minerais críticos que autoridades brasileiras consideraram genérico demais, enquanto a China negocia diretamente investimento em mina brasileira de terras raras.

O que acontece agora

O próximo passo é a construção da primeira planta nacional de separação. A Lei 15.506/2026 prevê R$ 2 bilhões em garantias e mais R$ 5 bilhões para beneficiamento mineral, com meta de ter a planta operando até 2030.

O vice-presidente Geraldo Alckmin esteve em Poços de Caldas (MG) neste mês defendendo que o país agregue valor às terras raras em vez de só exportar a matéria-prima.

É o mesmo movimento que já levou os Estados Unidos a aguardar o 2º turno das eleições para cobrar o Brasil sobre minerais críticos. Enquanto a planta não sai do papel, cada tonelada que sai de Goiás é processada, e valorizada, fora do país.