O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) confirmou nesta quinta-feira (17) que viaja a Nova York no domingo (20) para a Assembleia Geral da ONU. Na terça-feira (22), ele abre o debate entre os líderes mundiais, papel que o Brasil ocupa desde 1949.

"No domingo, eu vou para a reunião da ONU para ter um bate-papo com o Trump e dizer: não se meta nas eleições do Brasil", disse Lula, em referência ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

"O Brasil só tem um dono, que é o povo brasileiro", completou o presidente brasileiro.

A explicação para o Brasil abrir sempre a Assembleia está na tradição diplomática, não em regra escrita. Segundo o livro "O Brasil nas Nações Unidas, 1946-2011", da Fundação Alexandre de Gusmão, a prática começou em 1949, no auge da Guerra Fria.

A ideia, à época, era evitar dar a primazia do discurso de abertura aos Estados Unidos ou à União Soviética. O costume pegou e nunca mais foi interrompido.

Desde então, o secretário-geral da ONU envia uma nota à missão brasileira antes de fechar a lista de oradores, perguntando se o país quer manter a tradição. A resposta é sempre positiva.

A publicação da Fundação Alexandre de Gusmão descreve o gesto como algo que "honra e distingue o Brasil" no cenário multilateral.

De onde vem esse costume

A tradição tem raízes na própria fundação da ONU. "O Brasil foi muito importante na constituição da Carta da ONU e nas discussões para a criação da organização", diz Lucas Leite, professor da Faap (Fundação Armando Alvares Penteado).

"O diplomata Oswaldo Aranha teve papel essencial na primeira Assembleia Geral, inclusive conduzindo o processo que levou à criação do Estado de Israel", completou Leite. Segundo o professor, a diplomacia brasileira construiu reputação de mediadora de conflitos.

Diferente da maioria das delegações, que trata de temas pontuais, o Brasil usa a abertura para discursos amplos sobre a conjuntura internacional — combate à fome, desenvolvimento e reforma das instituições multilaterais.

O que mais move a Assembleia deste ano

A edição de 2026 já chega tensa antes do discurso brasileiro. O Departamento de Estado dos EUA informou nesta quarta-feira (17) que voltou a negar vistos à delegação palestina de alto nível, pelo segundo ano seguido.

O veto inclui o presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas. A TV Sim Brasil detalhou esse veto em matéria própria.

Segundo o governo americano, a Autoridade Palestina não cumpriu compromissos de acordos anteriores para buscar a paz com Israel e manteve ações contra o país na Corte Internacional de Justiça. Os palestinos serão representados por diplomatas já credenciados na ONU, como no ano passado.

É nesse cenário que Lula pretende usar o encontro com Trump para tratar da pressão dos EUA sobre a eleição brasileira, tema que já provocou atrito entre os dois governos.

Nos últimos dias, o presidente já havia sinalizado que cobraria não interferência no próprio discurso da ONU.

O que acontece agora

Lula embarca para Nova York no domingo (20) e discursa na terça-feira (22), sempre o primeiro chefe de Estado a falar no debate geral. O encontro com Trump ainda não teve data nem formato confirmados pelo Itamaraty.