O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) anunciou nesta quinta-feira (17) um reajuste de 15,04% no Bolsa Família, elevando o piso do benefício de R$ 600 para R$ 691. O anúncio foi feito a menos de três semanas do primeiro turno.

A notícia derrubou o Ibovespa em minutos e reacendeu a desconfiança do mercado com as contas públicas.

O índice da B3 chegou a renovar máxima do dia, em 186.203 pontos, antes do anúncio. Depois dele, acelerou a queda, tocou mínima perto de 183 mil pontos e fechou a manhã em 183.242,37 pontos, baixa de 1,24%.

Por que a Bolsa se recuperou depois

A recuperação começou depois que o ministro da Fazenda, Dario Durigan, disse que o aumento "cabe no Orçamento". Às 11h45, o Ibovespa já operava em 185.147 pontos, queda de apenas 0,22%.

A decisão do Copom já era esperada pelo mercado desde o início da semana. Para Kevin Oliveira, sócio da Blue3, o episódio se soma a um movimento mais amplo.

"A frase principal desta semana e dos próximos meses é que o carry trade está diminuindo", disse Oliveira. Segundo ele, o tema deve reduzir a atratividade relativa dos ativos brasileiros para o investidor estrangeiro.

João Daronco, analista da Suno Research, aponta que Fed e Copom já haviam movido os juros de forma esperada nesta semana. O Fed subiu 0,25 ponto percentual, e o Copom cortou a Selic de 14% para 13,75%, repetindo o que já havia sido antecipado.

"A diminuição do diferencial de juros deixa o Brasil relativamente menos interessante para o investidor estrangeiro do que era anteriormente", afirmou Daronco.

O precedente que o mercado não esqueceu

O piso de R$ 600 do Bolsa Família foi fixado no governo Jair Bolsonaro em 2022, também nas vésperas de uma eleição. Lula manteve o valor congelado desde então, até o reajuste desta quinta.

Segundo o ministro do Planejamento, Bruno Moretti, o INPC acumulado desde 2023 chegou a 15,04%, e o reajuste segue esse índice, sem ganho real: o benefício médio do programa sobe de R$ 675 para R$ 777.

O custo é de R$ 5,8 bilhões neste ano e deve chegar a R$ 22 bilhões em 2027, quando vigorar o ano inteiro.

A Advocacia-Geral da União (AGU) validou a medida no mesmo dia, afirmando que reajuste pela inflação, sem ampliar o número de beneficiários, está fora da vedação eleitoral que proíbe distribuição de benefícios em ano de eleição.

O ponto em aberto

O reajuste repete, sob outro governo, a mesma janela de calendário eleitoral usada em 2022. A diferença é que agora o mercado monitora de perto o efeito fiscal de cada decisão.

O carry trade perde força, e o diferencial de juros com os EUA encolhe.

Falta saber se o episódio desta quinta vira rotina até a eleição de outubro, cada vez que o governo tocar no Orçamento, ou se fica como caso isolado.