Donald Trump recebe nesta quinta-feira (24) o líder chinês Xi Jinping em Washington para discutir a corrida pela inteligência artificial. Analistas ocidentais estimam que os EUA mantêm vantagem de cerca de seis meses sobre a China nos modelos mais avançados de IA.

É a segunda visita de Estado entre os dois líderes em 2026, depois da viagem de Trump a Pequim em maio. Xi chegou à capital americana na quarta-feira (23), e o encontro principal ocorre nesta quinta.

Segundo o site InfoMoney, o debate sobre os riscos da inteligência artificial já consumiu o Vale do Silício e Washington. Nas últimas semanas, chegou também às Nações Unidas.

Alguns analistas de política externa chegaram a comparar a cúpula a conversas da Guerra Fria durante a corrida armamentista nuclear.

A reunião desta quinta foi precedida por conversas entre o secretário do Tesouro americano e o vice-premiê chinês, que prepararam o terreno para o encontro.

Os dois países consideram a IA decisiva para obter vantagem militar, tecnológica e econômica, mas a desconfiança mútua segue elevada. A chance de um acordo abrangente sobre o tema sair desta cúpula é considerada baixa.

As restrições chinesas à exportação de terras raras e as travas americanas à venda de chips avançados da Nvidia para a China seguem sendo os principais pontos de atrito — o mesmo impasse que já pesa nas negociações sobre commodities entre os dois países.

Por que o Brasil entra nessa disputa

O Brasil tem a segunda maior reserva mundial de terras raras, atrás só da China. Os depósitos em argilas iônicas de Poços de Caldas (MG) são mais baratos de explorar do que as reservas de rocha dura de outros países.

A China controla cerca de 60% da extração global de terras raras e domina quase 90% do refino mundial. Isso inclui 94% da produção de ímãs permanentes sinterizados, insumo essencial para motores elétricos, turbinas eólicas e equipamentos militares.

Diante disso, os Estados Unidos correram atrás. A empresa USA Rare Earth garantiu acesso a US$ 1,6 bilhão em recursos públicos, e o governo americano virou acionista dela.

O Brasil ainda exporta só o concentrado bruto de terras raras, sem processar. O quilo do concentrado misto vale US$ 10, enquanto o óxido já separado chega a valer entre US$ 50 e US$ 200 o quilo, até 20 vezes mais.

Segundo o presidente do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), Pablo Cesário, conversas com a embaixada chinesa e outros agentes do país mostraram abertura a parcerias, sem as restrições que a China impõe aos Estados Unidos.

Não vejo limites na cooperação com a China, os Estados Unidos ou qualquer investidor. Nem para tecnologia de separação de terras raras.

O presidente Lula já conversou por telefone com Xi Jinping sobre ampliar a cooperação em áreas estratégicas, entre elas inteligência artificial, satélites e processamento de minerais críticos.

Os Estados Unidos pediram que o Brasil avisasse com antecedência sobre venda de minerais críticos a outros países, sinal de que Washington também disputa espaço nesse mercado.

É uma dinâmica parecida com a que já acontece com outra commodity: o Brasil também sente o efeito do tabuleiro Xi-Trump nas exportações de soja.

O que trava o Brasil

Falta ao país um marco regulatório específico para o setor e uma cadeia produtiva estruturada de refino.

Entre os obstáculos, especialistas apontam a Selic em 15% ao ano, o maior patamar em 19 anos, e a dívida pública acima de 78% do PIB, projetada para cerca de 84% em 2026.

Para o economista Sergio Vale, da MB Associados, o país tem ativos importantes e pode se beneficiar do cenário geopolítico confuso para atrair investimento direto. Falta, segundo ele, política industrial coordenada.

A Agência Internacional de Energia projeta que a demanda global por terras raras deve crescer sete vezes até 2040, puxada pela transição energética e pela expansão da inteligência artificial.

O que acontece agora

Trump e Xi devem debater nesta quinta um mecanismo de alerta sobre incidentes de segurança envolvendo inteligência artificial, além de chips avançados e tarifas comerciais. Nenhum dos dois lados sinalizou disposição para desacelerar o desenvolvimento da tecnologia.