O Ministério da Saúde aplicou 1,3 milhão de doses da vacina contra o vírus sincicial respiratório (VSR) em gestantes somente em 2026, elevando a cobertura para 81,87% do público-alvo. Segundo dados apresentados em julho à Comissão Intergestores Tripartite (CIT), a imunização reduziu em 52,5% os casos graves de bronquiolite em bebês com menos de seis meses.

A vacina, chamada Abrysvo e fabricada pela Pfizer, é aplicada na gestante entre a 28ª e a 36ª semana de gravidez. O organismo da mãe produz anticorpos contra a proteína F do VSR.

Esses anticorpos protegem o recém-nascido nos primeiros seis meses de vida. "Esses anticorpos atravessam a placenta criando um escudo que blinda o recém-nascido", explica a médica Susana Aidé, da Febrasgo.

Em estudo clínico internacional que embasou a aprovação do imunizante, a Pfizer mediu redução de 81,8% no risco de doença respiratória grave nos primeiros 90 dias de vida do bebê, caindo para 69,4% até os 180 dias.

Já no mundo real, dentro do SUS, o efeito medido pelo Ministério da Saúde foi outro. Os casos graves de síndrome respiratória aguda (SRAG) por VSR em bebês menores de seis meses já tinham disparado e preocupavam autoridades de saúde.

Eles caíram de 14.061 para 6.674 entre o primeiro semestre de 2025 e o de 2026.

No mesmo período, as mortes de lactentes por VSR recuaram de 159 para 85.

Quem tem direito e quando tomar a vacina?

Têm direito à vacina todas as gestantes a partir da 28ª semana, gratuitamente em qualquer posto do SUS. Antes de o imunizante entrar no calendário público, em dezembro de 2025, a mesma dose só existia na rede privada, por até R$ 1.800.

Nem toda gestante brasileira está sendo alcançada da mesma forma. Levantamentos sobre a cobertura vacinal do país mostram que gestantes em situação de vulnerabilidade social registram mais falhas de registro e menor adesão à imunização.

Para especialistas em saúde pública, a principal barreira hoje não é falta de acesso ou de doses disponíveis. É a desinformação que ainda afasta parte das gestantes do posto de saúde.

O que acontece agora

O Ministério da Saúde mantém a meta de 80% de cobertura entre as gestantes elegíveis, hoje em 81,87%. Os próximos números devem sair na virada do ano, ao fim do primeiro inverno completo com o imunizante em todo o calendário nacional.

A mesma lógica de anticorpos maternos já protege contra a difteria, o tétano e a coqueluche, com a vacina dTpa aplicada em gestantes desde 2023. Em idosos, a versão do imunizante contra o VSR já havia reduzido hospitalizações em até 75%.

Para os bebês que nascem fora da janela de proteção materna, o SUS mantém em paralelo a estratégia Casulo de vacinação de quem convive com o recém-nascido.

O que ainda falta para chegar a todas as gestantes

Os números do primeiro ano indicam que a vacina cumpre o que prometeu: menos bebês na UTI e menos mortes por VSR. A cobertura já passou da meta oficial.

Ela ainda é desigual entre grupos sociais, e é nesse ponto que a política pública tem o próximo desafio pela frente.