A professora Lidiane Gomes de Souza Alves, de 50 anos, morreu no dia 5 de setembro após receber uma injeção contra queda de cabelo em um salão de beleza no Setor P, em Ceilândia (DF). Ela teve um choque anafilático duas horas depois da aplicação, feita na região glútea. A Polícia Civil apura exercício ilegal da medicina e homicídio culposo.

A aplicação foi vendida como um "coquetel" contra a queda de cabelo. Segundo o marido, Valdeci, Lidiane começou a tossir pouco depois do procedimento. Ao chegar em casa, estava ofegante e suando muito, com dificuldade para falar.

Ela perdeu a consciência a caminho da UPA P Norte e teve sete paradas cardíacas durante o trajeto. A equipe médica diagnosticou choque anafilático por reação alérgica grave, e Lidiane não resistiu.

A família contou à polícia que Lidiane tinha asma na infância e alergia a medicamentos conhecida. Nenhuma anamnese ou teste de alergia foi feito antes da aplicação, segundo o relato do marido às autoridades.

A responsável pelo procedimento se apresentou como profissional biomédica. Ela compareceu à 23ª Delegacia de Polícia Civil acompanhada de advogado e ficou em silêncio no depoimento, direito garantido a qualquer investigado.

Segundo o marido, ela mostrou uma lista com nomes de outras pessoas que também teriam recebido aplicações no mesmo salão. A reportagem não apurou quantos nomes constam na lista nem se essas pessoas foram procuradas pela polícia.

A perícia apreendeu seringas, frascos e embalagens no local. Entre as substâncias identificadas estão nicotinamida, ácido hialurônico, niacinamida com peptídeos, GHK-Cu e colágeno de placenta de ovelha. A investigação ainda não determinou qual delas provocou a reação fatal.

A Lei do Ato Médico (Lei 12.842/2013) reserva a indicação e a execução de procedimentos invasivos a médicos, com exceções previstas em lei para outras categorias habilitadas.

Biomédicos só podem aplicar injetáveis estéticos com formação específica e registro ativo no Conselho Regional de Biomedicina, em procedimentos como toxina botulínica, preenchimento e peeling químico.

A lista de procedimentos autorizados ao biomédico habilitado não cita, especificamente, a aplicação intramuscular de complexos vitamínicos. A reportagem não apurou se a responsável pelo salão de Ceilândia tinha outro tipo de registro ou habilitação para o procedimento.

É justamente essa credencial que a investigação da PCDF busca confirmar: se a aplicadora tinha, de fato, habilitação e registro para o procedimento que fez em Lidiane.

O que acontece agora

O caso segue como inquérito por possível homicídio culposo e exercício ilegal da medicina, sem prisão até o momento. A Polícia Civil aguarda o laudo do Instituto de Medicina Legal, que tem prazo de até 30 dias para apontar a causa exata da reação alérgica.

"A investigação segue em andamento e ainda não identificou qual substância desencadeou a reação alérgica fatal", informou a delegacia responsável pelo caso.