O governo dos Estados Unidos exigiu, em outubro de 2025, que o Brasil garantisse a participação de "dissidentes políticos" na eleição presidencial de 2026, sem prisão ou impedimento. O pedido fazia parte de um documento com 21 exigências ligado às negociações do tarifaço.
O Itamaraty rejeitou a proposta na mesma reunião em que ela foi apresentada.
Segundo o Metrópoles, que confirmou informação revelada pelo Estadão, o Departamento de Estado americano entregou a lista em 16 de outubro de 2025 a uma delegação brasileira chefiada pelo chanceler Mauro Vieira, em Washington.
Um trecho do texto diz que o Brasil não deve deter, prender nem limitar arbitrariamente a participação de dissidentes políticos no processo eleitoral. Uma fonte do Itamaraty contou ao Metrópoles como o pedido nasceu e morreu na mesma reunião.
Houve, de fato, o pedido, feito por um diplomata de origem venezuelana radicado nos EUA, mas nunca foi incorporado oficialmente às negociações. Foi dito que não há dissidentes políticos no Brasil e a solicitação não prosperou, nem mesmo naquele dia, nasceu morta.
Integrantes do governo brasileiro interpretaram a cláusula como uma referência ao ex-presidente Jair Bolsonaro, condenado a 27 anos e 3 meses de prisão por liderar trama golpista, e aos manifestantes do 8 de Janeiro. O governo Trump nunca citou Bolsonaro nominalmente no documento.
Outra fonte ouvida pela reportagem ponderou que "não se pode considerar Bolsonaro preso político, porque ele não se opõe ao sistema político". Segundo ela, o tema circulou só no nível técnico, sem virar base de negociação.
O que mais tinha no documento
O documento ia muito além da cláusula eleitoral: das 21 exigências, apenas 3 previam qualquer contrapartida dos Estados Unidos, e o restante impunha obrigações só ao lado brasileiro.
O texto pedia ainda que o Brasil não multasse nem prendesse cidadãos e empresas americanas por conduta protegida pela Primeira Emenda dos EUA, e que desse aviso prévio e direito de recurso em decisões de remoção de conteúdo nas redes sociais.
Também exigia que instituições financeiras brasileiras não fossem penalizadas por cumprir sanções americanas da Lei Magnitsky — a mesma lei que os EUA usaram, meses depois, para sancionar o ministro Alexandre Moraes a pedido de aliados de Bolsonaro.
O chanceler Mauro Vieira classificou a proposta como inaceitável e instruiu a equipe brasileira a excluí-la da negociação formal já na reunião de outubro. Ele relatou o episódio ao presidente Lula em particular.
Mas a proposta nunca chegou a virar item de negociação entre os dois países. Em novembro, o Brasil apresentou uma contraproposta que desconsiderou as exigências originais dos americanos.
O episódio se soma a outros atritos recentes: Washington também acusou o Brasil de falhar no combate ao PCC e ao CV.
Lula prepara um discurso na ONU em que deve cobrar a não interferência de outros países em assuntos internos, às vésperas da eleição de outubro.
O que acontece agora
Nem o Departamento de Estado nem o Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR) responderam a pedidos de comentário sobre o episódio.
O embaixador indicado pelos EUA para o Brasil, Daniel Perez, disse que as decisões eleitorais cabem aos brasileiros e prometeu trabalhar com quem for eleito. Não há nova rodada de negociação sobre o tema marcada até a publicação desta matéria.


























