Um estudo da consultoria LCA 4intelligence, que adaptou ao Brasil uma metodologia da Organização Internacional do Trabalho (OIT), mapeou 435 ocupações e concluiu que 31,3 milhões de empregos no país estão expostos à inteligência artificial. Desses, 5,5 milhões correm risco de automação completa.

Uma estimativa mais ampla do Banco Mundial eleva o alcance a 37% dos postos de trabalho, cerca de 37 milhões de pessoas. O risco mais imediato é menor: 5,4% dos trabalhadores estão em ocupações expostas a ferramentas como o ChatGPT, com funções quase automatizáveis.

Quais profissões estão mais expostas

As profissões mais afetadas são majoritariamente administrativas e de rotina, segundo o levantamento da LCA 4intelligence, e concentram tarefas repetitivas de escritório, atendimento e processamento de dados.

  • Escriturários gerais
  • Analistas financeiros
  • Desenvolvedores de páginas web e multimídia
  • Agentes e corretores de bolsa
  • Agentes de empréstimo e financiamento
  • Operadores de processamento de texto
  • Operadores de entrada de dados
  • Trabalhadores de contabilidade
  • Trabalhadores de serviços estatísticos e financeiros
  • Trabalhadores de folha de pagamento
  • Trabalhadores do serviço de pessoal
  • Trabalhadores de apoio administrativo
  • Vendedores por telefone

Para o economista Bruno Imaizumi, da LCA 4intelligence, a IA tende a reestruturar tarefas dentro das ocupações, não eliminá-las por completo. A tecnologia assume as partes rotineiras do trabalho e libera tempo para atividades mais complexas e criativas, segundo ele.

Trabalhadores com 50 anos ou mais têm mais proteção: cerca de 60% estão em funções pouco expostas à automação por IA generativa, geralmente ligadas a tarefas complexas e menos repetitivas.

O que muda para quem já está exposto

Para o professor Luís Guedes, da FIA Business School, a requalificação profissional é responsabilidade da sociedade e do Estado. A transição tende a afetar mais quem tem menor escolaridade e menos acesso a qualificação.

O debate ganhou força nesta quarta-feira (16), quando o presidente Lula defendeu regulação dura da inteligência artificial no mesmo dia em que o CEO da OpenAI admitiu que o temor sobre a tecnologia é legítimo.

A discussão sobre tecnologia e trabalho não é nova no Brasil. Quem trabalha por aplicativo já ganha menos e tem menos direitos desde a chegada dos aplicativos de entrega e transporte.

Em junho, a OIT aprovou uma convenção sobre direitos dos trabalhadores de aplicativos, a mesma organização cuja metodologia embasou o estudo sobre IA e emprego.

Quem paga a conta da requalificação

O estudo aponta quem está mais exposto à automação, mas quem banca a requalificação desses trabalhadores segue sem resposta clara. Guedes atribui a responsabilidade à sociedade e ao Estado, sem detalhar um programa concreto.