A Auditoria-Fiscal do Trabalho resgatou dois trabalhadores de condições análogas à escravidão em um sítio na zona rural de Cotia, na Grande São Paulo, nesta sexta-feira (7). Eles viviam em barracos sem banheiro e recebiam entre R$ 50 e R$ 200 por semana, sem pagamento nos dias em que não conseguiam trabalhar.

Os dois faziam serviços rurais — plantio, roça, colheita e aragem da terra. Um deles, de 59 anos e natural da Bahia, estava no sítio havia oito anos; o outro, de 40 anos e da própria região, havia pouco mais de um mês, embora já tivesse prestado serviço ali antes.

As condições encontradas pela fiscalização

Segundo a Auditoria-Fiscal do Trabalho, os dois viviam em barracos sem banheiro e eram obrigados a fazer necessidades fisiológicas numa área de mata próxima. Os banhos eram tomados ao ar livre, com água fria, em frente às moradias. Os alojamentos não tinham camas nem armários para guardar pertences.

O trabalhador mais velho recebia R$ 200 por semana, mas não era pago nos dias de chuva ou quando não conseguia trabalhar — e nunca tirou férias nos oito anos em que esteve no local. O outro recebia R$ 50 por semana; segundo relatos colhidos na fiscalização, a diferença estava ligada à produtividade e ao fornecimento de alimentação pelo dono do sítio.

O que acontece agora

Os trabalhadores foram encaminhados à rede de assistência social de Cotia e terão direito a seis parcelas do seguro-desemprego especial para vítimas de trabalho escravo contemporâneo. O proprietário do sítio foi notificado para registrar os contratos de trabalho e pagar as verbas trabalhistas — rescisão, férias e 13º — conforme o tempo em que cada um esteve na propriedade.

A fiscalização também lavrou autos de infração, que podem resultar em multas administrativas. O Ministério Público do Trabalho vai avaliar agora se propõe um termo de ajustamento de conduta ou entra com ação civil pública por danos morais. Só depois dessa etapa o caso segue ao Ministério Público Federal, que vai apurar se houve crime — o proprietário não foi indiciado até o momento.

O caso em Cotia é um entre os 271 trabalhadores resgatados de condições análogas à escravidão no Brasil neste ano — quase 10% dos 2.772 resgatados em todo o ano de 2025, alcançado em poucos meses.

Só em São Paulo, o Ministério Público do Trabalho recebeu 167 denúncias desse crime em 2026.