O comandante Danilo Romano assumiu o voo 2283 da Voepass, que caiu em Vinhedo (SP) e matou 62 pessoas em 2024, sem cumprir a exigência interna de 1.000 horas de voo em aeronaves ATR. Segundo o relatório final da Polícia Federal, divulgado neste sábado (8), a promoção rápida o tornou mais suscetível a pressões da gestão para omitir falhas técnicas.

Romano veio de aeronaves Airbus, onde pilotava jatos, e assumiu o comando de aviões ATR sem experiência anterior no modelo, segundo depoimento do comandante Marcelo Mantovani à PF. A promoção foi autorizada durante a gestão de Rafael Gimenez Rodrigues na chefia de treinamento da companhia.

O laudo da PF é direto: "A coaptação do comandante ROMANO aos interesses escusos da gestão, em não reportar falhas, sob a vantagem de uma promoção rápida, é uma das causas da produção do perigo concreto, visto que o referido tripulante não registrava as falhas no sistema de-ice", descreve o documento.

Colegas relataram pressão para omitir panes

O piloto Luiz Cláudio de Almeida contou à PF que Romano dizia ter sido promovido rapidamente por uma "relação de amizade e favores na chefia". Almeida relatou um episódio em que Romano resistiu a registrar uma pane de motor e só cedeu depois que o colega ameaçou desembarcar da aeronave; depois disso, Almeida pediu para não voar mais com Romano.

Outro piloto ouvido pela PF, Paulo Eduardo Pereira dos Santos, afirmou que comandantes recém-promovidos costumavam ficar "pianinhos" diante da chefia, enquanto profissionais mais experientes tinham mais segurança para recusar voos e exigir o registro de panes. No lugar de Almeida, passou a voar com Romano o copiloto Humberto de Campos, que foi escalado para o voo 2283 e morreu no acidente.

A PF relaciona a falta de experiência de Romano no ATR à forma como a tripulação reagiu ao acúmulo de gelo no voo 2283: a aeronave não iniciou imediatamente uma descida quando o gelo começou a se formar.

Em nota, a Voepass afirmou que sempre seguiu os protocolos de segurança, manutenção e treinamento previstos pela Anac, e que a tripulação do voo 2283 somava mais de 5 mil horas de voo, devidamente habilitada e certificada. A empresa possui certificação IOSA desde 2012.

O ATR 72-500, matrícula PS-VPB, fazia o trajeto entre Cascavel (PR) e o Aeroporto Internacional de Guarulhos (SP) quando caiu em um condomínio de casas em Vinhedo, em 9 de agosto de 2024. As 62 pessoas a bordo — 58 passageiros e quatro tripulantes — morreram; ninguém sobreviveu. Foi o acidente mais grave da aviação brasileira desde a queda do voo da TAM, em 2007.