Dois novos casos de remissão sustentada do HIV foram anunciados nesta segunda-feira (27) durante a 26ª Conferência Internacional de Aids, no Rio de Janeiro — a primeira edição do evento realizada na América Latina, promovida pela Sociedade Internacional de Aids (IAS) entre os dias 26 e 31 de julho. Com os dois novos registros, sobe para 13 o número de pessoas no mundo que mantêm carga viral indetectável mesmo sem tomar antirretrovirais.

Um dos pacientes, conhecido como "paciente de Kansas City", tem 21 anos. Ele foi diagnosticado com HIV e leucemia em 2018, quando a carga viral chegava a cerca de 2 milhões de cópias por mililitro de sangue, recebeu um transplante de células-tronco em outubro de 2020 e interrompeu os antirretrovirais em fevereiro de 2025 — está há 14 meses sem o tratamento e sem sinais do vírus. O segundo paciente, que também convivia com hepatite B, completou 12 meses sem antirretrovirais mantendo a carga viral indetectável.

Transplantes não foram feitos para tratar o HIV

Nos dois casos, os transplantes de células-tronco tinham como objetivo tratar doenças graves do sangue, como leucemias e linfomas — e não constituíam uma terapia contra o HIV. Os doadores, no entanto, carregavam duas cópias da mutação genética CCR5-delta32, uma variação rara que dificulta a entrada do vírus nas células do corpo. É esse mecanismo, segundo cientistas, que parece ter contribuído para o desaparecimento da carga viral nos receptores.

Por isso, pesquisadores evitam o termo "cura". Para o infectologista Ricardo Diaz, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), a expressão mais apropriada é "remissão sustentada do HIV", já que ainda não é possível comprovar de forma concreta que todo o vírus foi eliminado do organismo. O primeiro caso do tipo reconhecido no mundo foi o do "paciente de Berlim", Timothy Ray Brown, em 2009.

Conferência apresenta os casos nesta semana

A apresentação formal dos dois novos casos na conferência está marcada para esta quarta-feira (29). O imunologista Christian Gaebler, da Charité Universitätsmedizin Berlin, classificou os resultados como "realmente fascinantes" e afirmou que "o que podemos fazer é aprender com todos esses casos". A conferência discute, em paralelo, outras estratégias experimentais em teste contra o HIV, como terapias com células CAR-T e anticorpos amplamente neutralizantes.

Segundo dados apresentados no evento, cerca de 40,8 milhões de pessoas vivem atualmente com HIV no mundo, e a doença já causou 44 milhões de mortes desde o início da epidemia. No Brasil, o Ministério da Saúde contabiliza 390 mil mortes por aids desde o início dos anos 1980.