O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) estima em 81% a chance de o El Niño atingir a categoria "muito forte" entre outubro e dezembro deste ano. O fenômeno deve favorecer a chuva no Sul do Brasil e agravar o risco de seca no Norte e no Nordeste, com efeito direto sobre soja, milho, café e cana.

A base do alerta é a temperatura da superfície do Pacífico. Segundo o Inmet, a anomalia térmica medida pelo índice Niño 3.4 já estava entre 2°C e 2,5°C até 25 de julho, acima do pico de 1,4°C registrado no El Niño de 2023-2024.

Para o Climate Prediction Center dos Estados Unidos, referência usada pelo instituto brasileiro, a anomalia pode superar 3°C no auge do fenômeno.

"Não existe super El Niño", afirma a meteorologista Márcia Seabra, coordenadora-geral de Meteorologia Aplicada do Inmet. "A classificação vai até um El Niño muito forte."

O impacto, porém, não é uniforme. Uma chuva acima da média deve beneficiar a soja e o milho no Sul, enquanto o Norte e o Nordeste enfrentam risco elevado de estiagem.

Centro-Oeste e Sudeste ficam na zona de maior incerteza, com chance de atraso no plantio e necessidade de replantio.

Café, citros e cana-de-açúcar também estão expostos. As três culturas dependem de temperatura e umidade estáveis justamente na fase de florada, o período mais sensível a oscilações bruscas.

Nem toda propriedade rural chega igualmente preparada para o fenômeno.

Eduardo Monteiro, pesquisador da Embrapa Agricultura Digital, aponta que o grupo classificado no nível de manejo 1 é o mais vulnerável a perdas.

Levantamento da Embrapa mostra que, no Paraná e no Mato Grosso do Sul, de 34% a 44% das propriedades estão nos níveis de manejo 1 e 2, mais vulneráveis a evento extremo, contra 4% a 18% nos níveis 3 e 4, mais resilientes.

No Rio Grande do Sul, 72% das pequenas propriedades estão no nível 1 de vulnerabilidade. Na comparação entre áreas de manejo 3 e 1 no ciclo La Niña/El Niño de 2021-2022, a diferença de produtividade chegou a 83%.

Segundo análise citada pela revista Exame, uma safra brasileira maior, em meio a eventuais perdas agrícolas na Ásia, tende a pressionar as cotações internacionais e reduzir a margem dos produtores mesmo com volume maior exportado.

Enquanto o risco climático sobe, a rede de proteção encolheu. Segundo dados consultados pela reportagem, a área agrícola segurada no Brasil caiu de 13,45 milhões de hectares em 2021 para 3,2 milhões em 2025.

Menos hectares protegidos significa mais produtores expostos, justamente às vésperas de um dos El Niños mais fortes já registrados.

Quem protege a lavoura se o pior cenário se confirmar?

O Inmet evita cravar a intensidade do El Niño com tanta antecedência, mas os números disponíveis hoje já preocupam. A área rural segurada no Brasil caiu para menos de um quarto do que era em 2021, bem no momento em que o risco climático sobe. Se a previsão para outubro se confirmar, parte da lavoura brasileira vai enfrentar o fenômeno sem rede de proteção nenhuma.