A Organização Meteorológica Mundial (OMM), agência especializada da ONU, alertou que o El Niño deve se intensificar a partir de agosto e se tornar forte entre agosto e outubro de 2026. Segundo a previsão do órgão, a temperatura da superfície do Pacífico pode ultrapassar 2,9°C acima da média no período, e há 97% de chance de o fenômeno se estender até o início de 2027.

A OMM estima ainda em 81% a probabilidade de o El Niño atingir a categoria "muito forte" — patamar que, segundo projeções divulgadas em julho, colocaria o evento entre os mais intensos observados desde 1950, com pico previsto entre outubro e dezembro.

"Previsões, por si só, não evitam desastres. Mas pessoas evitam", afirmou Celeste Saulo, secretária-geral da OMM.

O secretário-geral da ONU, António Guterres, foi mais duro: "O El Niño está se intensificando – jogando lenha na fogueira de um planeta já em chamas, com ondas de calor escaldantes, incêndios florestais apocalípticos e mares com temperaturas recordes. Os combustíveis fósseis estão alimentando as chamas dessa crise".

Um país partido em dois

Pelo levantamento publicado em julho, o efeito no Brasil deve ser bem diferente de uma região para outra. No Sul e no Centro-Sul, a expectativa é de chuva acima da média, com risco de enchentes, inundações e deslizamentos, além de tempestades severas, vendavais e granizo — e possibilidade de microexplosões e tornados.

Já no Centro-Norte, incluindo Norte e Nordeste, a projeção é de redução significativa das chuvas a partir de agosto, temperaturas acima da média e ondas de calor persistentes, com aumento de queimadas e incêndios florestais. Entre outubro e dezembro, as temperaturas podem ficar próximas ou superiores a 40°C em diversas áreas.

"Pode ser um El Niño histórico, em um nível de intensidade nunca registrado", disse Estael Sias, meteorologista da MetSul, nas mesmas projeções.

O que muda na lavoura

Para o agronegócio, o cenário não é uniformemente ruim. No Sul, o excesso de chuva tende a favorecer as culturas de inverno, embora eleve o risco de doenças fúngicas. No Centro-Oeste, a previsão beneficia o milho de segunda safra, o algodão e a cana-de-açúcar, mas prejudica as pastagens. No Sudeste, as culturas de inverno e a colheita de café tendem a ser favorecidas, desde que as precipitações fiquem em níveis adequados.

O lado mais frágil é o Norte e o Nordeste, onde a deficiência hídrica deve reduzir a produtividade agrícola e pecuária. É também nessas áreas que a combinação de calor extremo e seca aumenta o risco de incêndios.

A OMM aponta ainda a formação esperada de um Dipolo positivo do Oceano Índico, com o lado oeste da bacia mais quente que a média e o leste mais frio. A combinação dos dois fenômenos tende a intensificar secas, enchentes e o risco de incêndios sobretudo na bacia do Índico, que abrange África Oriental, Sul da Ásia e Austrália.