Pesquisadores da USP identificaram, pela primeira vez, grãos de zircão deformados por impacto de asteroide na Cratera de Colônia, na zona sul de São Paulo. A descoberta, publicada na revista Earth and Planetary Science, encerra décadas de dúvida sobre a origem da estrutura, onde hoje vivem cerca de 40 mil pessoas no bairro Vargem Grande.

A equipe usou amostras retiradas em perfurações feitas pela Sabesp na região. Ao microscópio, os pesquisadores isolaram 40 grãos de zircão e selecionaram seis para análise detalhada, encontrando microdeformações típicas de pressão extrema.

As marcas, batizadas de PDFs (feições de deformação planar), só se formam sob pressão acima de 40 kilobars e temperatura próxima de 5.000°C, condições que só um impacto de corpo celeste produz.

"Os PDFs são praticamente uma impressão digital de que houve impactos de asteroides", afirma Victor Velázquez Fernandez, professor da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP e autor do estudo.

A confirmação encerra uma dúvida antiga. Por décadas, cientistas hesitaram entre duas explicações para a estrutura circular, um impacto de meteoro ou um vulcão extinto.

A estrutura já era registrada como anomalia de drenagem desde os anos 1940.

A primeira referência acadêmica à cratera é de 1961, no Boletim da Sociedade Brasileira de Geologia. Identificada por fotografia aérea no início dos anos 1960, a estrutura só entrou nas bases internacionais de crateras confirmadas em 2013.

Sobre a antiga cratera cresceu o bairro Vargem Grande, no distrito de Parelheiros. A ocupação começou em 1989 e hoje reúne cerca de 40 mil moradores, segundo o Censo de 2010.

"A geoconservação precisa envolver a comunidade. A população tem que se sentir pertencente", diz Velázquez Fernandez.

Muitos moradores já sabem que vivem dentro de uma cratera antiga e tratam a característica como parte da identidade do bairro, protegido desde 2007 como Parque Natural Municipal da Cratera de Colônia.

O Brasil tem uma das duas únicas crateras de impacto habitadas do mundo, e é esta.

Com 3,6 km de diâmetro e cerca de 300 metros de profundidade, a Cratera de Colônia foi aberta por um corpo de cerca de 200 metros, entre 5 milhões e 36 milhões de anos atrás.

O que a descoberta muda para quem vive lá

A confirmação científica não muda o endereço de ninguém, mas dá ao bairro um argumento raro de identidade. Vargem Grande vive dentro de uma das duas únicas crateras de impacto habitadas do mundo.

Para os pesquisadores da USP, o próximo passo é transformar esse dado em educação e sentimento de pertencimento, não apenas em artigo científico.