O governo Trump revogou nesta semana o visto da embaixadora do Brasil em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti, em meio ao aumento de tarifas sobre produtos brasileiros. Na mesma semana, o Brasil rebaixou o nível de relações diplomáticas com a Argentina após ataques do presidente Javier Milei a Lula. As crises ocorrem a poucos meses da eleição presidencial de 2026.

De acordo com o g1 e a TV Globo, a revogação do visto foi apresentada pelos americanos como resposta à demora do Brasil em conceder o agrément, autorização do país anfitrião para a nomeação de um embaixador.

O documento era aguardado para Daniel Perez, indicado de Trump para a embaixada dos EUA em Brasília.

A crise com a Argentina

Depois de uma série de declarações de Milei contra Lula, o governo brasileiro decidiu manter o embaixador brasileiro em Buenos Aires no Brasil enquanto durarem os ataques. A representação diplomática do país na Argentina passou a ser chefiada por um encarregado de negócios.

Milei, por sua vez, também criticou a política externa brasileira e acusou o país de se isolar do mundo.

"Não é só uma dissonância ideológica entre o governo de Lula e Trump e Milei. Há um ataque direto dessas lideranças para impulsionar essa polarização", afirma a doutora em Relações Internacionais Carolina Pavese.

Lula busca outros parceiros

Enquanto a tensão com Washington e Buenos Aires aumenta, Lula tem intensificado contatos com outros chefes de Estado.

Ele telefonou para Xi Jinping, da China, em 27 de julho, para Santiago Peña, do Paraguai, em 30 de julho, para Vladimir Putin, da Rússia, em 4 de agosto, e para Gustavo Petro, da Colômbia, em 5 de agosto.

Segundo interlocutores do Palácio do Planalto, novas conversas com presidentes podem ocorrer nas próximas semanas. Lula também sinalizou interesse em falar por telefone com Trump.

"Um traço da política externa de Lula sempre foi investir tanto em parceiros bem consolidados do norte global, quanto em buscar fortalecer uma cooperação sul-sul", diz Pavese.

A especialista compara o cenário com os dois primeiros mandatos de Lula, quando o republicano George W. Bush governava os Estados Unidos. "Mesmo sendo um republicano, havia um canal de diálogo e cooperação em agendas de interesse mútuo", avalia.

As crises diplomáticas também têm pano de fundo eleitoral.

Trump e Milei apoiam publicamente o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato à Presidência, e a proximidade de governos estrangeiros com a oposição passou a ser explorada no debate político brasileiro.

O próximo compromisso internacional de Lula deve ser em setembro, na Assembleia Geral da ONU, em Nova York.

Tradicionalmente, o Brasil abre os discursos da Assembleia e costuma apresentar as prioridades de política externa do país. Mudanças climáticas e defesa do multilateralismo devem estar entre os temas.