O número de chineses autorizados a trabalhar no Brasil passou de pouco mais de 3 mil em 2023 para mais de 10 mil em 2025, mais que o triplo em dois anos. Os dados são do Ministério da Justiça e Segurança Pública e acompanham o maior investimento chinês no país em sete anos.
Só em 2025, a China aplicou US$ 6,1 bilhões no Brasil.
A mão de obra qualificada vinda da China avançou mais de 140% no período. Em 2025, os chineses responderam por quase metade das autorizações de trabalho qualificado concedidas a estrangeiros no Brasil, seis vezes mais que o Japão, segundo colocado na lista.
O avanço acompanha a expansão de fábricas chinesas no país, com destaque para o setor automotivo elétrico. Segundo Alexandre Baldy, vice-presidente sênior da BYD Brasil, os profissionais chineses ajudam a identificar desafios que a equipe brasileira ainda não domina.
"É completamente transferência de conhecimento para que você aumente a performance tecnológica", afirmou Baldy.
O Brasil recebeu US$ 6,1 bilhões em investimentos chineses em 2025, alta de 45% sobre 2024 e o maior volume desde 2017. O país ultrapassou os Estados Unidos e se tornou o principal destino do capital chinês no exterior, à frente da Guiana.
Para o pesquisador Livio Ribeiro, da FGV Ibre, o movimento reflete a perda de espaço dos Estados Unidos na economia brasileira.
"Em geoeconomia, nunca sobra vácuo. No caso brasileiro, você tem uma diminuição da importância americana, e esse vácuo é ocupado pelo país que é mais importante em termos de balança comercial, em termos de economia, e crescentemente em termos financeiros depois dos Estados Unidos, que é a própria China", disse Ribeiro.
Sindicato rejeita ideia de substituição de vagas
A maior concentração está em Camaçari (BA), sede da fábrica de R$ 5,5 bilhões da BYD e polo que reúne também prestadoras como Falcão Engenharia, XCMG Brasil e Engenova Construções.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva visitou a linha de montagem do complexo em outubro de 2025.
Ali, sindicalistas fizeram piquete em maio contra a percepção de que trabalhadores locais estariam sendo preteridos nas contratações. O presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Camaçari, Júlio Bonfim, rejeita a leitura de que os chineses substituem mão de obra brasileira em massa.
"Grande parte dos chineses atua em áreas administrativas e técnicas, e não no chão de fábrica", afirmou Bonfim, para quem esse tipo de narrativa alimenta xenofobia e distorce o debate sobre industrialização e transferência de tecnologia.
A GWM segue padrão semelhante.
Apenas 9% dos 1.800 funcionários da montadora no Brasil são chineses, a maioria em funções temporárias voltadas à capacitação de trabalhadores brasileiros, segundo a empresa.
Nem toda a relação entre as duas mãos de obra correu sem atrito.
Em dezembro de 2024, o Ministério Público do Trabalho resgatou 163 trabalhadores em condição análoga à escravidão em obras ligadas à BYD em Camaçari. A montadora e duas empresas terceirizadas fecharam acordo de R$ 40 milhões com o MPT para encerrar a ação civil pública.
Um residencial com 600 apartamentos está em construção a cerca de 3,5 km do complexo industrial da BYD, para abrigar trabalhadores chineses e profissionais vindos de outras regiões do Brasil.
O que muda quando o treinamento terminar
A GWM diz que a maior parte dos chineses no Brasil ocupa funções temporárias, ligadas à capacitação de trabalhadores locais.
Falta saber quantas dessas vagas vão de fato passar para mãos brasileiras à medida que as fábricas amadurecem, e se o ritmo das autorizações, que já soma 3.193 só no primeiro trimestre de 2026, vai desacelerar quando essa transferência estiver completa.














