A Petrobras anunciou, nesta quarta-feira (16/9), um aumento de R$ 1 por litro no diesel vendido às distribuidoras. Na prática, o preço não muda: o governo federal criou um subsídio de mesmo valor que neutraliza o repasse, com vigência imediata e prazo de 30 dias.

O mecanismo nasceu da Medida Provisória 1.391/2026. A Petrobras aplica o reajuste e recebe, ao mesmo tempo, um desconto equivalente por litro vendido, de forma que o preço final às distribuidoras fica inalterado.

O gatilho foi a retomada da guerra no Irã, que empurrou o petróleo de volta para acima de US$ 100 o barril, sem previsão de queda. O Brasil importa cerca de 30% do diesel que consome.

Por isso, a Petrobras vinha vendendo o combustível por menos da metade do preço de paridade de importação. Produtores rurais do Rio Grande do Sul já relatavam dificuldade para encontrar diesel.

O mercado temia desabastecimento em outubro, quando o consumo sobe com o escoamento da safra. Segundo a Abicom, setembro já tem 870 mil m³ de importações programadas, 40% pela própria Petrobras.

Mesmo com o novo subsídio, somado a um programa anterior, o ressarcimento à Petrobras chega a R$ 2,12 por litro — ainda abaixo da defasagem real, hoje acima de R$ 3 por litro.

A estatal segue vendendo diesel mais barato do que custaria importá-lo.

"A Petrobras ressalta que mantém sua estratégia comercial orientada pela participação de mercado [...], evitando o repasse imediato aos preços internos da volatilidade conjuntural das cotações internacionais e da taxa de câmbio", disse a estatal em nota.

Quem banca a conta é o Tesouro. Somando o subsídio ao diesel (R$ 5 bilhões), a desoneração da gasolina (R$ 1,7 bilhão) e o etanol com alíquota zerada (R$ 300 milhões), o pacote custa R$ 7 bilhões por mês.

A conta é uma projeção da própria equipe econômica do governo. Desde março, quando o conflito no Oriente Médio começou a pressionar os preços, o pacote de combustíveis já soma R$ 16 bilhões.

O valor entra numa lista maior: o governo Lula lançou neste ano eleitoral pelo menos R$ 256,9 bilhões em medidas fora do orçamento original, do MOVE Motoristas à ampliação da isenção do Imposto de Renda.

Para Marcus Pestana, diretor da Instituição Fiscal Independente, ligada ao Senado, o problema não é o valor isolado, mas o formato.

"Não adianta ter um sistema de metas se você contorna o arcabouço fiscal com essas duas vias de despesas financeiras e extraorçamentárias", disse. "O investidor que compra título do Tesouro contabiliza isso, porque impacta a dívida".

O ponto em aberto

O subsídio ao diesel resolve o problema de hoje, mas não muda a causa: o Brasil segue dependente de petróleo importado, e o preço internacional segue fora do controle de qualquer governo.

Enquanto isso, o custo de segurar o preço na bomba passa a aparecer fora do orçamento, num formato difícil de rastrear — mesmo que o mercado que financia a dívida pública já compute o efeito.

O que acontece agora

O subsídio vale por 30 dias e pode ser renovado se o preço do petróleo continuar alto. A adesão da Petrobras ainda depende da publicação de atos complementares e da conclusão de trâmites internos de governança da própria estatal.