A ArcelorMittal informou nesta sexta-feira (25) ao governo da Ucrânia que está interrompendo a produção na usina de Kryvyi Rih, a maior siderúrgica do país. A empresa disse não ser mais possível manter operações "seguras e sustentáveis" depois de quatro ataques russos em cinco semanas.

Os ataques danificaram gravemente a estrutura e mataram cinco trabalhadores. Nesta mesma sexta-feira, bombardeios aéreos da Rússia mataram sete pessoas em Kiev, entre elas um adolescente de 14 anos.

Por que a indústria virou alvo

A Rússia intensificou nos últimos meses os ataques aéreos em toda a Ucrânia, usando mísseis balísticos e drones contra empresas, redes de logística, portos no Mar Negro e infraestrutura civil.

É com profundo pesar que concluímos que já não somos capazes de operar a ArcelorMittal Kryvyi Rih com segurança.

A frase é de Mauro Longobardo, presidente-executivo da subsidiária ucraniana da ArcelorMittal. A usina produziu 1,7 milhão de toneladas de aço em 2025, e o setor siderúrgico respondia por 15% das exportações do país antes da guerra se intensificar contra a indústria.

O setor já era empurrado ao limite antes deste ataque.

A produção de aço caiu 3% no semestre, e a de minério de ferro, quase 19%. A perda é estimada em 0,6% do PIB do país. Tarifas da União Europeia, o CBAM, cancelaram 300 mil toneladas em pedidos só na Kryvyi Rih.

A guerra econômica é de mão dupla

A Ucrânia também mira a economia russa: os ataques ucranianos têm como alvo instalações de defesa e energia, além de grandes varejistas online, para reduzir receitas e o apoio ao esforço de guerra de Moscou.

Entre janeiro e março de 2026, a Rússia acumulou déficit orçamentário de US$ 58,3 bilhões, 1,9% do PIB, com a receita do petróleo, principal fonte de caixa do Kremlin, caindo cerca de 50% no período.

O desgaste econômico corre em paralelo às tratativas de paz. Nesta semana, Trump pressionou Zelensky por diesel e mirou refinarias russas como parte da estratégia americana.

Os EUA propuseram reunião trilateral com Rússia e Ucrânia nos Emirados Árabes, e o Kremlin disse que o encontro pode ocorrer em breve. Antes disso, em setembro, Trump já havia proposto uma trégua energética entre os dois países.

A forma como a Ucrânia mede o próprio avanço na guerra também virou notícia recente: Zelensky passou a contar baixas russas por quilômetro quadrado conquistado, para dimensionar o custo do território para Moscou.

O ponto em aberto

Os ataques à indústria coincidem com o momento diplomático mais avançado em meses, com Zelensky relatando conversas diretas com Trump sobre o fim do conflito. A pressão econômica cresce nos dois lados ao mesmo tempo em que a saída negociada parece mais próxima.

Fica a pergunta se o desgaste da indústria é parte da margem de negociação de cada lado, ou só o custo de uma guerra que já dura quatro anos e meio.