A Arábia Saudita deixou discretamente o mBridge, plataforma digital liderada pela China para reduzir o uso do dólar no comércio internacional, segundo revelou o Financial Times. O banco central saudita, o SAMA, confirmou o fim da participação em maio de 2025.
O mBridge foi lançado pela China em 2021 para permitir que bancos centrais troquem moedas digitais diretamente, via blockchain, sem passar pelo sistema SWIFT, dominado pelo dólar.
Aderiram ao projeto, além da China, Hong Kong, Tailândia, os Emirados Árabes Unidos e o Banco de Compensações Internacionais (BIS), conhecido como o banco central dos bancos centrais do mundo.
A plataforma processou US$ 55 bilhões em transações, segundo relatório de 2026, um salto de 2.500 vezes em relação a 2022. Mesmo assim, o dólar segue presente em cerca de 90% das transações globais. Em nota ao Financial Times, o SAMA confirmou o desligamento.
"Conforme planejado, o SAMA concluiu com sucesso sua prova de conceito do mBridge em 13 de maio de 2025. Após a conclusão da prova de conceito, o SAMA deixou de ser um membro participante do mBridge", informou o banco central saudita.
Uma fonte ligada ao banco disse ainda que a instituição não queria mais estar publicamente envolvida com o projeto chinês.
O Banco de Compensações Internacionais já havia deixado o mBridge em outubro de 2024, o que o Financial Times associou a pressão dos Estados Unidos. O BIS nega motivação política e diz apenas ter "concluído sua participação".
Sobre a saída saudita, uma fonte evitou cravar o motivo: seria "impreciso tirar qualquer conclusão mais ampla" sobre pressão americana.
A adesão saudita ao projeto chinês, em 2023, era vista como ameaça ao regime do petrodólar, acordo firmado em 1974 em que Riad passou a precificar o petróleo em dólares e a investir os excedentes em ativos americanos.
O esquema se espalhou por outras cadeias produtivas, da indústria química aos fertilizantes.
O que a saída muda para o Brasil
A saída saudita não muda nada de imediato para o Brasil, mas expõe a dificuldade do mesmo caminho que o país persegue dentro do BRICS: reduzir a dependência do dólar sem uma alternativa pronta que os parceiros aceitem manter.
O bloco chegou à 18ª cúpula, em Nova Délhi, em setembro, sem lançar uma moeda comum. Optou por ampliar os pagamentos em moedas locais, hoje 90% do comércio dentro do BRICS, ante 65% em 2023.
O Brasil, que já vendeu US$ 61 bilhões em títulos dos EUA para ampliar as reservas em ouro, defende um sistema financeiro unificado entre os países do bloco, não a substituição das moedas nacionais.
A discussão ocorre em meio à tensão comercial entre Brasília e Washington. O chanceler Celso Amorim entregou a Xi Jinping uma carta de Lula com críticas à ingerência dos Estados Unidos.
O governo brasileiro também levou o tarifaço americano a uma consulta na Organização Mundial do Comércio nesta semana, mais um movimento para reduzir a dependência de decisões tomadas em Washington.
O que acontece agora
O mBridge segue em operação com os membros restantes, sem data anunciada para uma nova adesão relevante. O governo indiano, anfitrião da cúpula do BRICS em setembro, reiterou que não existe proposta de moeda única do bloco no curto prazo.
As tratativas do BRICS continuam concentradas em baratear pagamentos em moedas locais e reduzir o tempo de conversão cambial entre os países-membros, caminho que o Brasil defende como alternativa mais viável do que uma moeda comum.





























