Uma em cada cinco pessoas com dermatite atópica tem depressão, taxa duas vezes maior que a da população em geral. O risco de ansiedade também é maior, segundo revisão da literatura publicada no Journal of Clinical Medicine, em 2024, sobre a doença de pele.

A dermatite atópica é uma doença inflamatória crônica, não contagiosa e de origem genética. Provoca ressecamento e sensibilidade da pele, além de lesões avermelhadas e prurido (coceira intensa). No Brasil, levantamento citado em protocolo do Ministério da Saúde aponta prevalência de 2,3%.

Como a doença afeta a vida de quem convive com ela?

Pietro Medeiros, de 8 anos, de Cachoeirinha (RS), recebeu diagnóstico de quadro grave no Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA). Com o tempo, também desenvolveu depressão e ansiedade.

"Ele não saía da cama nem caminhava. Pense como é acordar e dormir sentindo dor e coceira, não conseguir tomar banho nem vestir roupa", contou a mãe, Dioneli Medeiros, à Folha.

Na escola, um colega que teve escabiose disse ter contraído a condição de Pietro, repetindo o que ouvira do pai. Uma professora chegou a perguntar à mãe se a dermatite era contagiosa. Depois desses episódios, o menino não queria mais ir às aulas.

O caso ilustra um alerta mais amplo: ansiedade e isolamento entre alunos têm sido tratados como sinal de atenção por escolas e famílias.

Por que existe tanta desinformação sobre a doença?

Pesquisa do Datafolha de 2020, feita a pedido da farmacêutica AbbVie, ouviu 1.001 pessoas sobre dermatite atópica. Entre os entrevistados, 30% acreditavam que a doença era contagiosa e 47% a associavam à falta de higiene.

Publicidade

Para 36% dos entrevistados, pessoas com lesões visíveis não deveriam sair de casa, estudar ou trabalhar. A dermatologista Rosana Lazzarini, primeira-secretária da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD), afirma que a coceira pode prejudicar o sono e afetar o desempenho nos estudos e no trabalho.

Quando as lesões são visíveis, o impacto pode alcançar também a vida social, segundo a dermatologista. É o mesmo tipo de peso que uma doença visível costuma ter sobre a saúde mental, como já mostrou a TV Sim Brasil.

No SUS, a lista de remédios de alto custo para doenças inflamatórias de pele foi ampliada neste ano.

O que ajudou no caso de Pietro?

No HCPA, Pietro iniciou acompanhamento psicológico e psiquiátrico. À medida que os sintomas melhoraram, voltou à escola e às brincadeiras, embora ainda apresente lesões.

"Eu gosto de brincar de futebol, gosto de brincar na rua, gosto de qualquer coisa", disse o menino à Folha.

A psicóloga Tarcila Cicchini, que trabalhou mais de 30 anos com pacientes dermatológicos no Hospital das Clínicas da FMUSP, disse à Folha: "A dermatite atópica não pode ser o carro-chefe da vida de um paciente, nem da família."