Os 11 países do BRICS aprovaram no sábado (12) a Declaração de Nova Délhi. O texto pede reforma do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial, e reitera apoio a um assento permanente do Brasil no Conselho de Segurança da ONU. Também condena tarifas e sanções unilaterais impostas sem acordo multilateral.

O documento foi batizado "Construindo para a Resiliência, Inovação, Cooperação e Sustentabilidade" e tem 140 pontos. Foi aprovado por unanimidade entre Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Egito, Etiópia, Emirados Árabes Unidos, Irã, Arábia Saudita e Indonésia.

Juntos, os 11 países somam cerca de 39% do PIB global e quase metade da população mundial. A crítica às tarifas repete o que o bloco já havia feito na véspera, quando criticou as tarifas unilaterais sem citar Trump diretamente.

Por que a reforma nunca sai do papel?

A reforma pedida pelo BRICS repete um pleito antigo, e os números mostram por que ele ainda não emplacou. O Brasil busca um assento permanente no Conselho de Segurança desde a fundação da ONU, em 1945, o equivalente a 81 anos de tentativa.

Para isso, o país integra o G4 ao lado de Alemanha, Índia e Japão. A aliança já chegou a propor que os novos membros permanentes só tenham direito a veto 15 anos depois de efetivados, numa tentativa de reduzir a resistência dos cinco membros atuais.

No FMI, o quadro é parecido. Dados do próprio Fundo mostram que os Estados Unidos detêm cerca de 17% das cotas, enquanto a China, a segunda maior economia do mundo, tem apenas 6%, e o Brasil, pouco mais de 2%.

Uma reforma de 2010 previa transferir mais de 6 pontos percentuais de poder de voto para economias emergentes. A mudança enfrentou forte resistência no Congresso americano e levou anos para ser ratificada.

Desde 2025, o BRICS cobra uma nova fórmula de cálculo das cotas do FMI, baseada no PIB ajustado pela paridade de poder de compra entre os países-membros.

Por que o Brasil insiste agora?

A declaração também condena tarifas e medidas não tarifárias unilaterais aplicadas fora de acordo multilateral. Defende ainda comércio e investimento nas moedas dos próprios membros do bloco, além de estudos para conectar os sistemas nacionais de pagamento entre si.

O pedido ganha urgência porque o Brasil já sente esse efeito na prática. As vendas do agronegócio brasileiro aos Estados Unidos caíram 25% no primeiro semestre deste ano, mesmo com o setor faturando US$ 87 bilhões no período.

O documento também prevê o reforço do Novo Banco de Desenvolvimento, criado pelo próprio BRICS em 2015 como alternativa a FMI e Banco Mundial.

O texto amplia o discurso para inteligência artificial e defende acesso mais amplo a países do Sul Global em áreas como saúde, energia e educação. Brasil e África do Sul, juntos, propuseram ainda um painel internacional para debater desigualdade entre países.

O ponto em aberto

A cúpula de Nova Délhi repete, com outras palavras, pedidos que o Brasil já fazia havia mais de uma década, tanto na ONU quanto no FMI. A presidência do bloco passa agora à China, que sedia a 19ª Cúpula em 2027.

O texto não traz nenhum mecanismo novo capaz de destravar o que impediu as reformas anteriores. O desfecho depende, mais uma vez, da disposição das potências que hoje concentram o poder de veto.