A Polícia Nacional do Paraguai, o Ministério Público e a Direção de Migrações encontraram cerca de 200 pessoas, a maioria brasileiras, em um prédio de Assunção na quinta-feira (17), durante uma operação contra suspeita de exploração trabalhista em um call center.

Mais de 40% dos brasileiros encontrados no local estavam em situação migratória irregular, segundo as autoridades paraguaias.

As vítimas foram captadas por plataformas digitais como Excite e Smart Call, com vagas de atendimento telefônico para pessoas de 20 a 50 anos no Brasil e promessa de rápida inserção no mercado paraguaio.

A denúncia que originou a operação, batizada de Dignidade, partiu de uma brasileira que disse ter sido recrutada dessa forma, segundo o UOL. O grupo trabalhava em três andares do edifício AURA Paraguay, na avenida Aviadores del Chaco, sede da empresa Marketing Sociedad Anónima.

A fiscala María Isabel Arnold, especializada em tráfico de pessoas, e o juiz Humberto Otazú autorizaram a diligência, da qual participaram também o Ministério do Trabalho paraguaio e a Direção Nacional de Migrações.

Os trabalhadores cumpriam um período de experiência de três meses e relataram desligamento sem receber salário nem indenização, segundo a investigação. Não houve constatação de cárcere privado, e os funcionários ouvidos durante a diligência disseram ter liberdade para deixar o prédio.

Ainda assim, a Justiça paraguaia não descarta que o recrutamento tenha ocorrido por engano.

Acreditamos, a princípio, mas não descartamos nenhuma hipótese

disse o comissário Humberto Ramón Aquino Riveros, da Polícia Nacional paraguaia, sobre a suspeita de que os trabalhadores tenham sido enganados na contratação.

Não é a primeira vez que brasileiros aparecem em um esquema do tipo. Em fevereiro, o Itamaraty já alertava sobre brasileiros aliciados com falsas ofertas de emprego em call centers no Sudeste Asiático (Camboja, Tailândia, Mianmar e Laos).

Lá, eram coagidos a aplicar golpes on-line, como fraudes com criptomoedas e falsos relacionamentos amorosos.

O caso do Paraguai repete o roteiro de recrutamento pelas redes sociais, mas agora num país vizinho, a poucas horas de voo do Brasil. No Brasil, casos de resgate por suspeita de trabalho análogo à escravidão também foram registrados neste ano.

Em agosto, uma operação flagrou situação parecida em Cotia, na Grande São Paulo, mostrando que o problema não se limita ao exterior.

O Paraguai também apareceu em outro caso recente de exploração de pessoas: no início de setembro, a Polícia Federal apurou o tráfico de um bebê vendido a uma família no país por R$ 15 mil.

O que acontece agora

O caso segue sob investigação da fiscala María Isabel Arnold, que apura se houve engano deliberado na captação dos trabalhadores. O material apreendido no prédio foi enviado a um laboratório forense em Assunção para perícia.

A Justiça paraguaia ainda vai decidir se os responsáveis pela Marketing Sociedad Anónima serão indiciados por tráfico internacional de pessoas. Cadernos, pendrives, arquivos e cinco notebooks apreendidos na diligência devem embasar a análise.