A gasolina comum vendida em todo o Brasil passou a ter 32% de etanol anidro na mistura desde sábado (1º). A mudança, apelidada de E32, eleva o percentual que era de 30% e está prevista na Resolução nº 9/2026 do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), publicada em 30 de julho.
Segundo a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), a medida tem caráter temporário: vale por 180 dias e pode ser prorrogada uma única vez por igual período. A gasolina premium não muda e continua com 25% de etanol anidro. A agência informou ainda que o novo teor não altera, neste momento, as demais especificações previstas na Resolução ANP nº 807/2020.
A troca do combustível nas bombas não é instantânea. Pelos prazos divulgados pela ANP, as distribuidoras têm 15 dias para se adaptar nas regiões Sul, Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste, e 30 dias na Região Norte. Já os postos revendedores têm 30 dias nessas mesmas quatro regiões e 60 dias no Norte. A fiscalização da agência observará esses prazos antes de aplicar autuações e medidas de interdição relacionadas ao novo percentual.
Governo prevê gasolina R$ 0,03 mais barata
Ao anunciar a decisão do CNPE, em 14 de julho, o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, afirmou que o aumento do teor de etanol deve reduzir o preço do litro em R$ 0,03. "Barateia em R$ 0,03 [o litro], mas, principalmente, diminui a nossa dependência da importação de gasolina", disse o ministro, que também não descartou tornar o E32 permanente: "A transitoriedade dos 32% é um excesso de zelo".
O Ministério de Minas e Energia justificou a mudança pelo cenário de instabilidade no mercado internacional de petróleo e combustíveis, marcado pela volatilidade no abastecimento global, e estimou que o país deixe de importar cerca de 900 milhões de litros de gasolina por ano. A base técnica citada pelo governo são os testes do Instituto Mauá de Tecnologia, que, segundo o ministério, atestaram a viabilidade da mistura em veículos leves e motocicletas, inclusive com motores não flex.
MPF pede suspensão; Unica defende a medida
Contrário à mudança, o Ministério Público Federal ajuizou ação civil pública para suspender a decisão do CNPE até que estudos específicos comprovem a segurança da nova mistura para os motores da frota brasileira. Para os procuradores, os estudos que embasaram a medida "não demonstraram, de forma conclusiva, os impactos do E32 sobre durabilidade de componentes, emissões, autonomia e compatibilidade com diferentes tipos de veículos".
Na ação, o MPF aponta riscos de corrosão de peças, desgaste de bombas de combustível e falhas em sistemas de injeção eletrônica, especialmente em motocicletas, veículos antigos e modelos importados. Os procuradores argumentam ainda que os estudos usados foram elaborados para o E30 e não para validar especificamente a adoção permanente do E32, alegam falta de análise sobre impactos ambientais indiretos e pedem perícia técnica independente.
Do outro lado, a União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (Unica) sustenta que a ampliação fortalece a segurança energética e reduz a dependência de gasolina importada. Segundo a entidade, "não há evidências, nos resultados obtidos, de impactos sobre desempenho, dirigibilidade, partida a frio, consumo, emissões ou funcionamento dos veículos em decorrência da adoção do E32". A Unica afirma que os testes do Instituto Mauá foram feitos em veículos leves e motocicletas a gasolina fabricados entre 1994 e 2024, e que mesmo os mais antigos não apresentaram impactos em partida, marcha lenta, aceleração ou dirigibilidade. A entidade estima que o país deixe de importar cerca de 800 milhões de litros de gasolina por ano.
Entre mecânicos, a leitura é mais cautelosa. Profissionais do setor apontam aumento do consumo e redução da autonomia nos veículos movidos exclusivamente a gasolina. "Com mais etanol na mistura, o consumo pode aumentar ligeiramente. Acredito que no máximo 5%", avaliou Alexandre Dias, mecânico e proprietário das oficinas Guia Norte. Para o técnico e professor de mecânica automotiva Tenório Júnior, a diferença está na taxa de compressão: "A compressão dos carros a gasolina baixa, o suficiente para fazer a gasolina entrar em combustão, mas não o suficiente para 'queimar' com eficiência o etanol. Isso gera falhas, perda de potência e dificuldade nas partidas a frio".
As peças citadas por esses profissionais como mais sujeitas a desgaste são o carburador, presente apenas em veículos antigos, o tanque metálico, a bomba de combustível, os bicos injetores, as velas de ignição, o catalisador e itens de vedação como mangueiras e retentores. Os tanques de plástico, presentes na maioria dos veículos lançados desde o início dos anos 2000, não despertam a mesma preocupação. Em carros com injeção eletrônica, segundo os mecânicos, o módulo de injeção pode ser atualizado para adaptar o motor à nova proporção.














