Os Correios fecharam o segundo trimestre de 2026 com prejuízo de R$ 2,4 bilhões, segundo balanço divulgado neste sábado (29). O resultado eleva a perda acumulada no primeiro semestre a R$ 5,5 bilhões, alta de 30,4% sobre o mesmo período de 2025.

O rombo é puxado por dois fatores que pouco têm a ver com a operação postal. As despesas financeiras da estatal saltaram 179%, para R$ 1,6 bilhão, por causa de juros e multas de empréstimos contratados no fim de 2025.

As provisões para perdas judiciais também subiram, para R$ 1,6 bilhão, alta de 44,5%. Enquanto isso, a receita ficou praticamente parada em R$ 8,16 bilhões, R$ 28,2 milhões a menos que em 2025.

O segmento que mais recuou foi o de encomendas internacionais, cuja fatia na receita total caiu de 22,2% para 4,3% em um ano.

Para onde vai o dinheiro do socorro

Parte do salto nas despesas financeiras vem do empréstimo de R$ 20 bilhões que os Correios negociaram em outubro de 2025 com um consórcio de bancos públicos e privados. O aval é do Tesouro Nacional, e metade do valor já foi liberada.

O Ministério Público junto ao Tribunal de Contas da União pediu fiscalização da operação. A taxa negociada ficava perto de 136% do CDI, acima do teto de 120% que o Tesouro costuma aceitar em empréstimos com aval soberano.

O Tesouro respondeu que só bancaria a garantia com juros menores. Pelo desenho original, os R$ 20 bilhões servem só para cobrir despesas até dezembro deste ano, sem previsão de virar investimento.

A reestruturação avança devagar. Das mil agências planejadas para fechar, 256 já saíram do ar. O programa de demissão voluntária, que a estatal abriu em agosto mirando 7 mil adesões, reuniu 2.400 interessados até o balanço, menos de um quarto da meta.

Parlamentares de oposição, como PL e União Brasil, classificaram o empréstimo como golpe na responsabilidade fiscal. O argumento é que o aval do Tesouro transfere o risco da dívida ao contribuinte enquanto mascara a má gestão da estatal.

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Trabalhadores da categoria também reagem. Em janeiro, representantes do sindicato baiano dos Correios acusaram o governo Lula e o então ministro da Casa Civil, Rui Costa, de "traição" pela decisão de recorrer ao Supremo Tribunal Federal contra benefícios trabalhistas.

A crise não é nova. Os Correios lucraram R$ 3 bilhões em 2021, o último ano no azul. Desde então, o prejuízo cresce ano a ano, de R$ 767 milhões em 2022 a um recorde de R$ 8,5 bilhões em 2025.

Já no início de agosto, os Correios lideravam o rombo recorde das estatais federais. O cenário só piorou com o balanço fechado agora.

O que acontece agora

A fiscalização do TCU sobre o contrato de R$ 20 bilhões segue em aberto, assim como a renegociação da taxa de juros com o Tesouro.

É o mesmo tipo de aval que ajuda a explicar por que a dívida pública sobe mesmo quando o governo paga mais do que capta.

Os Correios ainda têm 744 agências para fechar dentro da meta e precisam quadruplicar a adesão ao PDV para chegar às 10 mil vagas pretendidas.